“A crise obrigou-nos a ter comportamentos mais inteligentes”

Jorge Morgado, Secretário-geral da Deco, diz que é importante haver incentivos à pequena poupança e melhorar os níveis de literacia financeira.

Quais foram as principais iniciativas que a Deco colocou em prática nos últimos anos e que ajudaram os portugueses a gerirem melhor os seus orçamentos e a poupar mais? Estou lembrar-me, por exemplo, do Gabinete de Apoio ao Sobre-endividado.

Tudo aquilo que temos feito sobre situações de sobre-endividamento é o chamado tratamento curativo. Ou seja: São situações de pessoas que infelizmente já não conseguem cumprir com as suas obrigações e nós tentamos ajudar estas pessoas a refazerem a sua situação económica. Mas além deste trabalho, tentamos também fazer todo o tratamento preventivo. E aí entra a disponibilização da informação. Relativamente aos produtos financeiros da Banca mantemos regularmente testes e exames para darmos uma informação isenta. Esta informação está disponível e, pensamos nós, que é essencial para melhorar a literacia financeira das famílias. Ainda no combate à iliteracia há ainda que destacar o trabalho que temos feito através do contacto pessoal com os consumidores e as comunidades. Nos últimos 10 anos fizemos milhares de ações em sala por todo o país, em colaboração com as câmaras e as juntas de freguesia, os bombeiros, as paróquias.

Já no plano das ações com mais impacto, conseguimos mobilizar os consumidores portugueses para participarem em leilões. E o que sentimos, como resultado destas ações, é que se nos unirmos conseguimos ter uma intervenção mais forte no mercado e uma maior capacidade para negociar. Queremos influenciar pela positiva a vida económica do país, queremos que a economia esteja mais centrada nos consumidores.

 

Apesar deste processo de aprendizagem que temos enfrentado nos últimos anos, que erros nota que os portugueses continuam a cometer? Ainda somos consumidores comodistas ou passivos?

Diria que essa é uma visão que já não é completamente atual. Temos contactos diretos com as grandes empresas e sabemos perfeitamente que as empresas sentem a pressão dos consumidores nos seus balcões. Não é por acaso que as grandes empresas tiveram de organizar serviços de atendimento de reclamações, serviços em que essas reclamações são catalogadas e estudadas e são utilizadas para alterar disfunções e comportamentos dentro das próprias companhias. Todas as generalizações são injustas. E como tal, não podemos dizer que todos os consumidores portugueses em situação de litígio vão militantemente exigir o cumprimento dos seus direitos. Sabemos que alguns consumidores ainda são passivos. Mas há aqui um processo geracional: Nós hoje estamos muito mais despertos para estas questões relacionadas com os direitos dos consumidores do que estiveram os nossos pais.

 

 “É importante facilitar o acesso dos portugueses à poupança. Por exemplo, eu posso ter capacidade para poupar 50 euros por mês, mas depois tenho alguma dificuldade em encontrar um produto onde estes 50 euros, essa pequena quantia, faça sentido, porque há muitos produtos que me exigem um montante mínimo de 500 ou mil euros à partida”

Mas onde é que os consumidores continuam a falhar?

A nossa população tem, em muitos casos, um grau de instrução média que é mais baixo do que em alguns outros países da Europa. E isso reflete-se no dia-a-dia. Sabemos que há pessoas que têm dificuldades em fazer uma carta, em utilizar um simples mail, em fazer uma reclamação. Não é por acaso que nós atendemos presencialmente as pessoas na tentativa de as ajudar a fazer esse tipo de procedimentos. Nas associações de consumidores no sul da Europa estes temas são tratados por telefone e a reclamação é uma questão pessoal, que fica a cargo do consumidor. Sabemos que temos algumas limitações nesta matéria [literacia financeira]. E esta é talvez uma das nossas maiores dificuldades: saber reclamar. Já reclamamos bastante, mas temos de saber reclamar melhor, com mais cuidado, com mais precisão, com maior eficiência. E nesse sentido temos uma frente de colaboração entre os técnicos das Deco e as escolas para apoiar projetos, ações e iniciativas que os professores estão a organizar precisamente para os preparar para área da vida. Porque uma criança tem hoje mais contacto com o dinheiro e com o banco do que eu tive na mesma idade. Tudo isto requer uma aprendizagem, uma preparação e um conhecimento.

 

A literacia financeira é então um eixo central para ajudar a termos consumidores mais esclarecidos e com melhores hábitos de poupança?

Sem dúvida. Temos de melhorar claramente a literacia financeira. Os consumidores portugueses têm de perceber melhor os atos que fazem. Por exemplo, no campo dos investimentos têm de perceber como funciona a bolsa, têm de saber quais são as diferenças entre um produto financeiro complexo e outro mais simples. Todas estas noções têm de ser adquiridas para que não haja a possibilidade de qualquer comportamento menos correcto ou mais trapaceiro de qualquer agente económico. A questão da iliteracia financeira é, pois, uma questão importante que é preciso atacar. Mas, por outro lado, tem de haver mais transparência e mais informação. Tem de haver mais informação comparável entre os produtos financeiros. Eu não tenho de ter um curso superior para conseguir distinguir as condições deste ou daquele produto financeiro…

 

E o que pensa que poderia ser feito especificamente para melhorar os níveis de poupança dos portugueses?

Se daqui a uns tempos, com esta aprendizagem que as famílias fizeram, tivermos mais dinheiro circulante é muito natural que as famílias se mobilizem para uma maior poupança. É também importante facilitar o acesso dos portugueses à poupança. Por exemplo, eu posso ter capacidade para poupar 50 euros por mês, mas depois tenho alguma dificuldade em encontrar um produto onde estes 50 euros, essa pequena quantia, faça sentido, porque há muitos produtos que me exigem um montante mínimo de 500 ou mil euros à partida.

 

“Temos algumas limitações nesta matéria [literacia financeira]. E esta é talvez uma das nossas maiores dificuldades: saber reclamar. Já reclamamos bastante, mas temos de saber reclamar melhor, com mais cuidado, com mais precisão, com maior eficiência”

Faz sentido, para a Deco, que o estímulo à poupança possa vir através da atribuição de incentivos fiscais à poupança?

Sem dúvida. Os impostos existem para aumentar as receitas dos Estados. Mas é também importante que os impostos sejam uma forma de condução de comportamentos e que possam ser utilizados orientar as pessoas para aquilo que a nação e a comunidade precisam. Essa é também uma forma interessante de mobilizar as pessoas para a poupança: É criar condições especiais para que a pequena poupança seja mais valorizada.

 

Este ano a Deco faz 40 anos de existência. Quais serão os grandes focos da atuação da associação no futuro?

Há realidades que vão aparecer e suscitar muitas questões num futuro próximo e para as quais ainda não há resposta. É o caso do mundo digital: Cada vez mais serão colocadas questões relacionadas com direitos, deveres, perigos, facilidades e as dificuldades em encontrar um enquadramento legal planetário. A questão da alimentação será também um tema importante: Haverá alimentos suficientes para uma população que está a crescer? Estamos cada vez mais longe da matéria-prima que comemos: Comemos frangos de aviário e (cada vez mais) peixes de viveiros. E como tal, há aqui problemas de segurança alimentar que vão surgir.

Outra questão importante é a da saúde. A saúde é um bem fundamental e tem de estar necessariamente na lista de prioridades do Estado Social. Além disso há novos perigos de desafios nesta área: estamos a lidar cada vez mais com antibióticos menos eficazes, há micro-organismos cada vez mais resistentes aos medicamentos. E isso vai exigir um maior foco de atenção da nossa parte.

 

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– Entrevista: “A poupança não deve ser uma medida de SOS”

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