“A crise obrigou-nos a ter comportamentos mais inteligentes”

Jorge Morgado, Secretário-geral da Deco, diz que é importante haver incentivos à pequena poupança e melhorar os níveis de literacia financeira.

jorgeartigoA maior e mais antiga associação de defesa dos consumidores em Portugal, a Deco, comemora este ano 40 anos de existência. No âmbito do Especial Mês da Poupança, o Saldo Positivo entrevistou Jorge Morgado, secretário geral da associação sobre a mudança de hábitos de poupança e de comportamentos de consumo dos portugueses nos últimos anos. O responsável explica que os portugueses tornaram-se consumidores mais inteligentes e menos impulsivos mas diz que ainda há muito por fazer no campo da literacia financeira em Portugal.

 

O que mudou a crise nos hábitos de poupança dos portugueses nos últimos anos?

Aquilo que vemos é que os portugueses têm menos dinheiro disponível para poupar fruto, por um lado, do aumento da carga fiscal e, por outro lado, da degradação salarial das famílias portuguesas. Para além do flagelo do desemprego que afetou muitas pessoas houve também muitas famílias que, mantendo-se empregadas, viram uma degradação dos seus salários. Foi o que aconteceu, por exemplo, com as pessoas que desenvolviam atividades comerciais e que como passaram a vender menos têm menos prémios. Estamos também a falar de pessoas que trabalhavam em empresas, que por via da crise, renegociaram ou impuseram salários mais baixos aos seus trabalhadores. Ou seja, cruzando esta degradação salarial com o aumento da carga fiscal, temos menos dinheiro disponível para poupar.

 

Mas apesar dessa realidade, os números do INE mostram que a taxa de poupança das famílias está a aumentar. Como se explica então esta tendência?

Havia famílias que embora estivessem a cumprir com os seus encargos tinham um nível de endividamento grande, na esperança que viessem melhores dias e de que os seus salários iriam aumentar. Todos nós pensávamos que o próximo ano iria ser ligeiramente melhor do que o ano que passou. E esta mentalidade desapareceu. Houve uma reformulação disto tudo. E como tal, as famílias tiveram de refazer a sua forma de estar no consumo. Deixaram de ter uma visão otimista – de que o futuro seria melhor – e passaram a ter uma visão mais realista e começaram a prevenir o futuro. O ataque ao Estado Social e o sentimento de incerteza quanto ao futuro fez com que as pessoas tivessem necessariamente de tratar de redesenhar a sua economia familiar e doméstica de uma forma diferente. E essa nova forma de gerir fez com que as pessoas passassem a poupar mais.

 

” Os consumidores portugueses têm uma grande qualidade: aprendem depressa”

Considera que esta nova linha de pensamento que obrigou os portugueses a serem mais cautelosos na gestão do seu orçamento familiar veio para ficar? Ou será que quando a crise passar vamos esquecer tudo o que aprendemos?

Penso que as condições económicas vão continuar a ser adversas no futuro. A crise, infelizmente, veio para ficar. E a adoção deste tipo de comportamentos não é para desaparecer mas sim para aprofundar. Os consumidores portugueses têm uma grande qualidade: aprendem depressa. Nós partimos em Portugal para a defesa dos direitos dos consumidores muito mais tarde do que no resto da Europa. Lá fora, as associações de consumidores estão a comemorar os seus 70/75 anos de existência. Nós fazemos este ano 40 anos. E sentimos que o comportamento dos portugueses evoluiu rapidamente. Temos imensos exemplos que podem mostrar isto: As pessoas rapidamente aprenderam a mobilizar-se para defenderem os seus direitos. Os portugueses utilizam hoje a reclamação como uma forma efetiva de exercerem os seus direitos. Temos os livros de reclamações a aumentar, as reclamações na Deco a aumentar também. O povo português foi progressivamente adquirindo a mobilização suficiente para lutar e exigir pelos seus direitos. E notamos que já há muitas famílias que conseguiriam alterar os seus comportamentos: As pessoas verificam melhor a sua lista de compras antes de se dirigirem a um supermercado e analisam as faturas para ver se as somas estão certas.

 

Ou seja, a crise pode ter tido aqui um lado positivo no que diz respeito à adoção de comportamentos de consumo mais saudáveis e equilibrados…

As crises têm sempre efeitos terríveis e negativos, mas têm também um aspeto positivo que é o de obrigar as pessoas a alterar comportamentos e a ter comportamentos mais inteligentes. As pessoas compram hoje menos por impulso, gerem melhor o seu orçamento familiar. A sua qualidade de vida em alguns aspetos piorou, mas noutros casos há uma relação mais inteligente com a utilização do automóvel, com as idas aos restaurantes, com a comparação de preços.

E também é importante que os consumidores percebam que têm direitos mas também têm obrigações. E uma das obrigações que têm é procurar informação, para que os seus atos de consumo não sejam feitos por impulso. Por exemplo, se eu for comprar um eletrodoméstico, não devo optar por comprar aquele que é mais bonito mas devo comprar com base num teste laboratorial e que me vai dar informações interessantes sobre esta matéria.

 

“As crises têm sempre efeitos terríveis, mas têm também um aspeto positivo que é o de obrigar as pessoas a alterar comportamentos e a ter comportamentos mais inteligentes. As pessoas compram hoje menos por impulso, gerem melhor o seu orçamento familiar”

Quais foram as principais iniciativas que a Deco colocou em prática nos últimos anos e que ajudaram os portugueses a gerirem melhor os seus orçamentos e a poupar mais? Estou lembrar-me, por exemplo, do Gabinete de Apoio ao Sobre-endividado.

Tudo aquilo que temos feito sobre situações de sobre-endividamento é o chamado tratamento curativo. Ou seja: São situações de pessoas que infelizmente já não conseguem cumprir com as suas obrigações e nós tentamos ajudar estas pessoas a refazerem a sua situação económica. Mas além deste trabalho, tentamos também fazer todo o tratamento preventivo. E aí entra a disponibilização da informação. Relativamente aos produtos financeiros da Banca mantemos regularmente testes e exames para darmos uma informação isenta. Esta informação está disponível e, pensamos nós, que é essencial para melhorar a literacia financeira das famílias. Ainda no combate à iliteracia há ainda que destacar o trabalho que temos feito através do contacto pessoal com os consumidores e as comunidades. Nos últimos 10 anos fizemos milhares de ações em sala por todo o país, em colaboração com as câmaras e as juntas de freguesia, os bombeiros, as paróquias.

Já no plano das ações com mais impacto, conseguimos mobilizar os consumidores portugueses para participarem em leilões. E o que sentimos, como resultado destas ações, é que se nos unirmos conseguimos ter uma intervenção mais forte no mercado e uma maior capacidade para negociar. Queremos influenciar pela positiva a vida económica do país, queremos que a economia esteja mais centrada nos consumidores.

 

Apesar deste processo de aprendizagem que temos enfrentado nos últimos anos, que erros nota que os portugueses continuam a cometer? Ainda somos consumidores comodistas ou passivos?

Diria que essa é uma visão que já não é completamente atual. Temos contactos diretos com as grandes empresas e sabemos perfeitamente que as empresas sentem a pressão dos consumidores nos seus balcões. Não é por acaso que as grandes empresas tiveram de organizar serviços de atendimento de reclamações, serviços em que essas reclamações são catalogadas e estudadas e são utilizadas para alterar disfunções e comportamentos dentro das próprias companhias. Todas as generalizações são injustas. E como tal, não podemos dizer que todos os consumidores portugueses em situação de litígio vão militantemente exigir o cumprimento dos seus direitos. Sabemos que alguns consumidores ainda são passivos. Mas há aqui um processo geracional: Nós hoje estamos muito mais despertos para estas questões relacionadas com os direitos dos consumidores do que estiveram os nossos pais.

 

 “É importante facilitar o acesso dos portugueses à poupança. Por exemplo, eu posso ter capacidade para poupar 50 euros por mês, mas depois tenho alguma dificuldade em encontrar um produto onde estes 50 euros, essa pequena quantia, faça sentido, porque há muitos produtos que me exigem um montante mínimo de 500 ou mil euros à partida”

Mas onde é que os consumidores continuam a falhar?

A nossa população tem, em muitos casos, um grau de instrução média que é mais baixo do que em alguns outros países da Europa. E isso reflete-se no dia-a-dia. Sabemos que há pessoas que têm dificuldades em fazer uma carta, em utilizar um simples mail, em fazer uma reclamação. Não é por acaso que nós atendemos presencialmente as pessoas na tentativa de as ajudar a fazer esse tipo de procedimentos. Nas associações de consumidores no sul da Europa estes temas são tratados por telefone e a reclamação é uma questão pessoal, que fica a cargo do consumidor. Sabemos que temos algumas limitações nesta matéria [literacia financeira]. E esta é talvez uma das nossas maiores dificuldades: saber reclamar. Já reclamamos bastante, mas temos de saber reclamar melhor, com mais cuidado, com mais precisão, com maior eficiência. E nesse sentido temos uma frente de colaboração entre os técnicos das Deco e as escolas para apoiar projetos, ações e iniciativas que os professores estão a organizar precisamente para os preparar para área da vida. Porque uma criança tem hoje mais contacto com o dinheiro e com o banco do que eu tive na mesma idade. Tudo isto requer uma aprendizagem, uma preparação e um conhecimento.

 

A literacia financeira é então um eixo central para ajudar a termos consumidores mais esclarecidos e com melhores hábitos de poupança?

Sem dúvida. Temos de melhorar claramente a literacia financeira. Os consumidores portugueses têm de perceber melhor os atos que fazem. Por exemplo, no campo dos investimentos têm de perceber como funciona a bolsa, têm de saber quais são as diferenças entre um produto financeiro complexo e outro mais simples. Todas estas noções têm de ser adquiridas para que não haja a possibilidade de qualquer comportamento menos correcto ou mais trapaceiro de qualquer agente económico. A questão da iliteracia financeira é, pois, uma questão importante que é preciso atacar. Mas, por outro lado, tem de haver mais transparência e mais informação. Tem de haver mais informação comparável entre os produtos financeiros. Eu não tenho de ter um curso superior para conseguir distinguir as condições deste ou daquele produto financeiro…

 

E o que pensa que poderia ser feito especificamente para melhorar os níveis de poupança dos portugueses?

Se daqui a uns tempos, com esta aprendizagem que as famílias fizeram, tivermos mais dinheiro circulante é muito natural que as famílias se mobilizem para uma maior poupança. É também importante facilitar o acesso dos portugueses à poupança. Por exemplo, eu posso ter capacidade para poupar 50 euros por mês, mas depois tenho alguma dificuldade em encontrar um produto onde estes 50 euros, essa pequena quantia, faça sentido, porque há muitos produtos que me exigem um montante mínimo de 500 ou mil euros à partida.

 

“Temos algumas limitações nesta matéria [literacia financeira]. E esta é talvez uma das nossas maiores dificuldades: saber reclamar. Já reclamamos bastante, mas temos de saber reclamar melhor, com mais cuidado, com mais precisão, com maior eficiência”

Faz sentido, para a Deco, que o estímulo à poupança possa vir através da atribuição de incentivos fiscais à poupança?

Sem dúvida. Os impostos existem para aumentar as receitas dos Estados. Mas é também importante que os impostos sejam uma forma de condução de comportamentos e que possam ser utilizados orientar as pessoas para aquilo que a nação e a comunidade precisam. Essa é também uma forma interessante de mobilizar as pessoas para a poupança: É criar condições especiais para que a pequena poupança seja mais valorizada.

 

Este ano a Deco faz 40 anos de existência. Quais serão os grandes focos da atuação da associação no futuro?

Há realidades que vão aparecer e suscitar muitas questões num futuro próximo e para as quais ainda não há resposta. É o caso do mundo digital: Cada vez mais serão colocadas questões relacionadas com direitos, deveres, perigos, facilidades e as dificuldades em encontrar um enquadramento legal planetário. A questão da alimentação será também um tema importante: Haverá alimentos suficientes para uma população que está a crescer? Estamos cada vez mais longe da matéria-prima que comemos: Comemos frangos de aviário e (cada vez mais) peixes de viveiros. E como tal, há aqui problemas de segurança alimentar que vão surgir.

Outra questão importante é a da saúde. A saúde é um bem fundamental e tem de estar necessariamente na lista de prioridades do Estado Social. Além disso há novos perigos de desafios nesta área: estamos a lidar cada vez mais com antibióticos menos eficazes, há micro-organismos cada vez mais resistentes aos medicamentos. E isso vai exigir um maior foco de atenção da nossa parte.

 

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