Cinco dicas de poupança das nossas avós

Utilizar roupa velha para fazer mantas e encontrar soluções baratas para preparar refeições são alguns hábitos de poupança das nossas avós.

Avoartigo2Inocência da Conceição tem 87 anos, quatro filhos e seis netos. Nascida e criada numa aldeia beirã, esta camponesa viveu grande parte da sua vida praticamente daquilo que cultivava no campo. Apesar de ter apenas a terceira classe, Inocência tem um doutoramento na arte da gestão do orçamento familiar: “Há 50 ou 60 anos atrás tínhamos mesmo de ser pessoas orientadas e poupadas porque não havia dinheiro”, explicou ao Saldo Positivo. E mesmo assim Inocência não se pode queixar: ela pertencia a uma das famílias que melhor vivia na povoação. “O dinheiro que tinha para governar a minha família – de seis pessoas – durante o ano inteiro era dois contos e quinhentos escudos. Era o dinheiro que vinha da resina dos pinheiros”, adiantou.

Como era possível esticar assim tão pouco dinheiro durante 365 dias? “Não se desperdiçava nada. As pessoas só tinham duas mudas de roupa: uma para usar durante a semana, outra para usar ao domingo. A roupa passava de uns filhos para os outros e quando estava gasta e rota era cortada às tiras e dessas tiras teciam-se mantas para as camas”, exemplifica. Tal como Inocência da Conceição, muitas avós portuguesas passaram ao longo das suas várias décadas de existência por muitas fases de restrições orçamentais que as obrigaram a terem uma disciplina rigorosa na gestão das suas finanças pessoais. Conheça algumas dicas de poupança que as avós costumam empregar e que poderão ser úteis para quem gere as despesas de uma casa no atual contexto.

 

1. Fazer conservas e compotas:

Há 50 anos, a eletricidade ainda não tinha chegado a muitas aldeias portuguesas, incluindo a aldeia de Teixeira, onde Inocência da Conceição habitava. Sem frigorífico ou arca frigorífica para conservar os alimentos, o recurso utilizado passava, muitas vezes, por “salgar” a pouca carne que existia, fazer conservas de tomate (que ao longo do ano eram utilizadas para fazer guisados) e confecionar doces feitos a partir das frutas da época. Os tempos entretanto mudaram e já não há necessidade de recorrer a estes processos antigos para garantir a conservação dos alimentos. No entanto, a confeção de compotas e de doces caseiros poderá ajudá-lo a garantir algumas poupanças. Isabel Zibaia Rafael, autora do blogue “Cinco Quartos de Laranja”, por exemplo, referiu em anteriores declarações ao Saldo Positivo que aproveita as frutas e os legumes da época (que são nessa altura mais baratos) para congelá-los ou fazer compotas. E assim tem sempre estes produtos à mão durante o ano inteiro. Há também quem aproveite estas compotas e doces caseiros para oferecer como presentes a familiares e amigos em aniversários e Natais.

 

2.  Não desperdiçar:

Quando vivemos com o nosso orçamento no limite, só existem duas formas possíveis para conseguirmos poupar. Ou aumentamos os nossos rendimentos, ou então temos de reduzir gastos. E neste último campo, Inocência da Conceição é uma verdadeira perita: “Quando descascávamos as batatas para a sopa, as cascas não iam para o lixo: serviam de ração para os porcos e para as cabras. E os troços das couves que não eram comestíveis para nós, eram cortados aos bocadinhos e dados como comida para as galinhas. Tudo era aproveitado ao máximo”. Nos dias de hoje, o mesmo princípio pode ser aplicado em muitas situações da nossa vida. Exemplo: Das sobras de um jantar é possível confecionar um prato para nova refeição; se colocarmos redutores nas torneiras podemos reduzir o consumo de água até 50%, se tivermos o cuidado de não deixar os eletrodomésticos em ‘stand by’, a fatura da eletricidade vai encolher.

 

3. Reutilizar:

A escassez de recursos que muitos dos nossos avós enfrentaram em determinadas fases da sua vida, obrigaram-nos a ser inventivos e a dar vários usos ao mesmo objeto. Inocência da Conceição aproveitava a roupa velha e rota, para tecer mantas ou fazer bolas de trapos para os filhos jogarem à bola. E as grandes latas de chocolate em pó, quando vazias, eram transformadas em vasos para semear uma roseira, ou então serviam para guardar outros produtos (colorau, folhas de louro, alhos, etc). Hoje em dia a reciclagem está de novo na moda. São vários os blogues de bricolage que ensinam os portugueses a utilizar caixas velhas a transformá-las prateleiras ou mesas de cabeceira, a aproveitar latas de refrigerantes para fazer um objeto de decoração ou mesmo a restaurar móveis antigos. Paralelamente a este movimento surgiu ainda outro: o de compra e venda de artigos em segunda mão. Se antes da crise, era habitual deitarmos fora a roupa e os objetos obsoletos, nos últimos anos esta mentalidade alterou-se. Há cada vez mais sites, lojas e mercados de trocas e vendas de artigos em segunda mão. O surgimento deste segmento traz vantagens para os dois lados: quem vende os artigos, desfaz-se de um bem e consegue obter um rendimento extra. Quem compra, tem a oportunidade de adquirir um artigo que necessita, mas a um preço mais atrativo.

 

4. Optar por uma alimentação ‘low cost’:

A carne e o peixe são exemplos de alimentos que até há cinco ou seis décadas eram um verdadeiro luxo para a maioria das famílias portuguesas. Ainda hoje, são produtos que pesam bastante na fatura alimentar dos agregados. Para colmatar a falta destes alimentos, as nossas avós muitas vezes tinham de puxar pela imaginação. Na casa de Inocência Neves, por exemplo, a sopa era sempre o prato principal ao almoço e ao jantar. E aproveita-se o grão e o feijão cultivados para cozinhar pratos “mais fartos” e o pão para fazer açordas. Nas refeições mais simples a sopa era acompanhada com broa e um pouco de “conduto”, que podia ser queijo de cabra ou um pedaço de farinheira (ou outro enchido feito a partir do porco). Hoje em dia, as limitações não são tão fortes como há décadas atrás, mas muitas famílias precisam de reduzir a fatura de despesas com a sua alimentação. Segundo o portal “Conhecer a Crise”, com base em dados do INE, cerca de 21% do consumo privado das famílias é canalizado para a compra de bens alimentares. Para reduzir este peso existem vários truques e estratégias que podem ser tidos em conta para garantir uma alimentação saudável e barata. Por exemplo, além de privilegiar os legumes e a fruta da época, também poupará alguns euros se optar por comprar em avulso e se evitar as refeições pré-congeladas.

 

5. Encontrar estratégias para poupar

Atualmente, a maioria das pessoas recebe o seu salário através de uma transferência para as suas contas no banco. No passado, a história era bem diferente: as pessoas recebiam o salário em dinheiro, muitas vezes à semana. O dinheiro era guardado em casa e dividido por vários envelopes. Cada um deles tinha um destino específico: uns envelopes eram usados para as despesas do dia-a-dia, outros para as despesas pontuais e havia sempre um envelope com dinheiro que era destinado à poupança. Hoje em dia, guardar o dinheiro por envelopes é um sistema arcaico. Mas a repartição do dinheiro que entra em casa por vários objetivos continua a fazer sentido: É importante que as famílias garantam que têm rendimentos suficientes para pagar as despesas fixas mensais, as despesas pontuais que possam aparecer, consigam construir um fundo de emergência e ainda tenham poupanças reservadas para o futuro. Para garantirem esta boa gestão de orçamento as famílias têm ao seu dispor um conjunto de vários mecanismos: desde ‘softwares’ e aplicações informáticas que controlam as entradas e saídas de dinheiro de uma família, passando pelos agendamentos de transferências automáticas para uma conta-poupança.

 

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