Educação financeira: O que foi feito e o que falta fazer?

A educação financeira esteve em debate numa conferência da APB. Saiba quais os motivos que levam a que este tema esteja na ordem do dia.

ConferenciafotoartigoHá uma década, a expressão “educação financeira” ou “literacia financeira” ainda não fazia parte do léxico da população, nem das escolas, das empresas ou do setor financeiro português. No entanto, as crises financeiras pelas quais o mundo passou desse 2008 e a crescente complexificação dos produtos financeiros tornaram visíveis as lacunas de conhecimento financeiro da população.

Foi exatamente com o intuito de combater o problema da iliteracia financeira e promover estratégias para aumentar o nível de conhecimentos financeiros dos portugueses que foi realizada na última segunda-feira, a 1ª conferência de Educação Financeira da Associação Portuguesa de Bancos (APB). Lúcia Leitão, diretora do departamento de Supervisão Comportamental do Banco de Portugal e uma das oradoras presentes neste evento, explicou a relevância do tema. “A formação financeira é a base da cidadania e da inclusão financeira. E é um tema que está no topo da agenda das instituições internacionais”.

 

Níveis de literacia financeira em Portugal em linha com a Europa

A realização desta conferência inseriu-se no âmbito de um programa mais alargado dedicado ao tema da educação financeira: A “Semana Europeia do Dinheiro”, que se realiza entre 9 e 13 de março, numa iniciativa da European Banking Federation e que conta com a participação de 21 países, Portugal incluído.

José de Matos, presidente da comissão executiva da CGD; Fernando Faria de Oliveira, presidente da APB; Pedro Duarte Neves, vice-governador do Banco de Portugal; Lúcia Leitão, diretora do departamento de Supervisão Comportamental do Banco de Portugal e presidente da comissão de coordenação do Plano Nacional de Formação Financeira; Luís Vilhena da Cunha, diretor geral do Instituto de Formação Bancária; Fernando Reis, Secretário de Estado do Ensino Básico e Secundário; Pedro Seixas Vale, presidente da Associação Portuguesa de Seguradores, foram algumas das personalidades  presentes nesta conferência.

Além dos oradores nacionais estiveram também presentes Adele Atkinson, responsável pela área de Financial Education and Consumer Protection da OCDE e Sébastian de Brouwer, diretor da European Banking Federation, para dar a conhecer o caminho que tem sido feito na Europa e em outros países do mundo no combate à iliteracia financeira. E na verdade, este não é um problema exclusivo do mercado português. Segundo Adele Atkinson existe uma percentagem elevada de adultos em vários países que não sabe calcular uma taxa de remuneração de um produto de investimento.

 

Quais os benefícios de uma população bem preparada financeiramente?

Fernando Faria de Oliveira, da APB, referiu que o significativo alargamento do leque de produtos financeiros, a cada vez maior complexidade dos produtos financeiros e a maior regulação do sistema bancário, entre outros fatores, são alguns argumentos que tornam imperativa a promoção da educação financeira dos clientes bancários. “A criação de uma cultura financeira na sociedade beneficia a todos ”, rematou. A sua visão foi também partilhada por José de Matos, presidente da CGD: “Há muita gente que não lê os papéis que assina. O conhecimento das características dos produtos, das condições e dos riscos desses produtos é um fator que contribui para reforçar a confiança nos mercados financeiros. É bom para os consumidores e fornecedores de serviços financeiros”.

No mesmo sentido, Pedro Duarte Neves, do Banco de Portugal referiu que a literacia financeira dá aos consumidores “uma maior capacidade para fazerem escolhas e isso contribui para uma maior eficiência do sistema bancário”.

As palavras do vice-governador foram corroboradas por Susana Albuquerque da ASFAC, que deu a conhecer alguns resultados práticos de como a aposta na educação financeira está a levar à diminuição do crédito em incumprimento, no segmento do crédito ao consumo: “Quanto mais responsável e mais informado for um consumidor, menor será o incumprimento. Notamos que o incumprimento entre as nossas associadas tem diminuído. Isso deve-se por um lado, ao fator crise, mas também à maior consciencialização do recurso ao crédito responsável”, explicou a secretária geral da ASFAC.

Apesar da progressão que Portugal tem feito nos últimos anos no campo da literacia financeira, todos são unânimes em dizer que há ainda um longo caminho a percorrer: “As pessoas estão hoje mais bem preparadas para lidar com questões financeiras do que há uma década atrás. Mas ainda não chegámos ao ponto ideal. A crescente inovação do sistema financeiro exige que os consumidores estejam preparados para lidar com essa crescente sofisticação”, explicou Fernanda Santos, coordenadora do departamento de formação da DECO. Além desta tendência, que já tinha sido alertada pela European Banking Federation no relatório “Financial Education- Special Focus on Children and Youth”, há também um outro fenómeno das sociedades modernas que torna fundamental a aposta na promoção da educação financeira. Adele Atkinson, da OCDE, explicou durante a conferência da APB que em muitos países as pessoas estão a ser confrontadas com responsabilidades financeiras que não tinham no passado: têm de garantir a educação dos seus filhos (que antes era gratuita) e têm de assegurar também as suas reformas (que antes eram totalmente pagas pelos sistemas de Segurança Social). Ou seja, o facto de os consumidores terem cada vez mais responsabilidades financeiras a seu cargo torna imperativo que estejam dotados de competências e conhecimentos suficientes para conseguirem fazer as escolhas financeiras mais adequadas ao seu perfil.

Por todas estas razões, José de Matos, presidente da comissão executiva da CGD, acredita que a aposta na promoção da educação financeira não é uma moda passageira, mas sim uma tendência estruturante que veio para ficar. “Não considero que o tema da educação financeira seja uma moda ou uma questão passageira. As nossas sociedades estão a progredir, estão a enriquecer, estão a educar-se em todos os domínios, incluindo nos aspetos financeiros”, afirmou em declarações ao Saldo Positivo. E adiantou: “Como esta crise demonstrou este é um aspeto importante, as pessoas precisam de estar bem informadas, precisam de conhecer bem os produtos financeiros com que lidam. E isso é uma matéria que interessa aos consumidores de serviços financeiros mas também aos fornecedores dos serviços financeiros, como os bancos, as seguradoras. Vai ser bom para todos no longo prazo”.

 

Semana Europeia do Dinheiro

As crianças e os jovens são o público-alvo das atividades de promoção da educação financeira que vão realizar-se em 21 países durante esta semana, no âmbito da  “European Money Week”. Em Portugal, a organização da “Semana Europeia do Dinheiro” está a cargo da Associação Portuguesa de Bancos. Além da realização da 1ª Conferência de Educação Financeira da APB, está prevista a realização de diversas atividade junto de várias escolas e ainda o lançamento de um concurso dirigido às crianças e jovens intitulado “A Minha Nota de Euro”. Segundo Rita Machado, coordenadora do projeto de Educação Financeira da APB, o objetivo é “sensibilizar as crianças para a adoção de comportamentos ajustados nas suas decisões financeiras. Estamos a investir na educação financeira dos adultos de amanhã”. Recorde-se que a APB tem o portal Boas Práticas, Boas Contas, dedicado à promoção da educação financeira em Portugal.

 

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