“Existe muito empreendedorismo por necessidade”

O presidente da ANJE quer fazer uma missão empresarial a Silicon Valley, mas também a outros mercados menos conhecidos, como a Indonésia ou Cuba.

anje1Num momento em que nunca como agora se falou tanto de empreendedorismo em Portugal, o Saldo Positivo Empresas entrevistou o presidente de uma das mais importantes associações empresariais portuguesas. João Rafael Koehler é administrador da empresa Colquímica e está desde 2013 à frente dos destinos da Associação Nacional de Jovens Empresários (ANJE). Segundo este responsável, a questão do acesso ao financiamento continua a liderar a tabela das maiores preocupações das pequenas e médias empresas portuguesas. João Rafael Koehler coloca também a tónica na necessidade das empresas portuguesas tornarem-se cada vez mais globais e descobrirem novos mercados. Por esta razão, a ANJE quer preparar missões empresariais à Indonésia, Cuba e também a Silicon Valley, nos EUA.

 

O empreendedorismo de repente tornou-se quase numa moda. Todos falam em empreendedorismo. Como vê este súbito interesse por esta área? Não haverá o perigo de termos empreendedores sem perfil para gerirem um negócio?

Não podia estar mais de acordo. Não posso dizer que há pessoas que querem ser empreendedoras e não têm condições para isso. Mas a verdade é que há pessoas com muitas ideias de negócio que depois nunca se vão transformar em boas empresas, não vão ser empresas sustentáveis. Uma das missões da ANJE no serviço de aconselhamento e no serviço jurídico passa justamente por explicar que o caminho do empreendedorismo é um caminho meritório mas também difícil. É preciso muita persistência, muito trabalho e, obviamente, nem todos estão preparados para serem empreendedores.

 

Olhando para os números, a taxa de mortalidade nos primeiros anos de vida das empresas portuguesas é muito elevada. Na vossa opinião quais são os grandes fatores que contribuem para a elevada taxa de insucesso?

A taxa de mortalidade é realmente elevada, mas também são criadas muitas empresas. Por isso há aqui um mecanismo de compensação. A principal explicação tem a ver com o facto de haver muito empreendedorismo por necessidade. Ou seja: as pessoas abrem negócios para criarem autoemprego e é uma solução fácil e imediata para o desemprego. Mas muitas vezes, estas pessoas não estão preparadas para “take the next step”. Por outro lado, há a questão dos pagamentos por conta e as dificuldades que existem à manutenção dos pequenos negócios. Porque os pagamentos por conta são muito severos, muito constantes e muito apertados. São um pagamento obrigatório e a sua restituição é muito dificultada e isso também não ajuda a um ambiente de manutenção de empresas startup. Mas também devemos olhar para a taxa de mortalidade das empresas nos outros países, porque nos outros países também acontece um fenómeno muito semelhante.

Para saber qual a melhor forma de empreender leia o artigo Incubação ou aceleração: Qual é a melhor aposta?

 

Neste momento quais são as grandes preocupações que as vossas associadas vos colocam?

Diria que a primeira é o financiamento. Também há algumas preocupações sobre como constituir uma empresa, se bem que isso foi um bocado diluído, porque é relativamente simples constituir uma empresa. Há também muitas questões sobre o plano de negócios, sobre como tornar uma empresa sustentável, porque tem de haver um projeto coerente.

 

Em relação à questão financiamento, o setor bancário tem vindo a dar sinais de maior abertura para a concessão de crédito à economia. A ANJE já nota efetivamente sinais dessa melhoria de acesso a financiamento?

Aquilo que a banca diz, que há crédito para as boas empresas, é verdade. Mas normalmente as boas empresas, quando são muito boas e têm rácios de endividamento muito interessantes, conseguem-se financiar até no estrangeiro. O maior problema é para as empresas que ainda estão numa fase de maturação, porque essas empresas é que têm verdadeiramente necessidades. E aí penso que a banca precisa de ir mais além. Nós também entendemos que a banca tem de emprestar dinheiro com critério para depois não termos os malparados que tivemos no passado. Ou seja: não deve alinhar pela bitola da quantidade. Ainda assim, entendo que devia haver mecanismos mais racionais no que diz respeito aos empréstimos às pequenas e médias empresas.

Saiba Como evitar erros na criação de empresas neste artigo. 

 

anje2O que poderia então ser feito de melhor forma neste campo?

Por exemplo, quando as pequenas e médias empresas se candidatam a projetos com fundos comunitários, em que uma percentagem do projeto tem de estar assegurada pelos capitais da empresa isso normalmente é uma dificuldade para algumas empresas, porque não têm a solvabilidade. E julgo que esta situação seria relativamente simples de se resolver se houvesse entre o Estado e a banca um mecanismo mais fácil e ágil para a abertura de garantias bancárias de forma a garantir esses projetos. Muitas vezes há uma teia burocrática que impede que as coisas avancem. O mesmo se passa relativamente a descontos de cartas de crédito, a descontos de faturas: As empresas têm faturas que emitiram sobre clientes nacionais ou estrangeiros e precisam de financiamento, precisam de descontar as faturas. Precisava tudo de ser mais agilizado.

 

Assumiu a direção da ANJE há poucos meses. Quais são as prioridades do seu mandato para os próximos anos?

A primeira grande prioridade é o investimento na nossa área do empreendedorismo. Queremos reforçar a nossa área de atuação porque a criação de empresas é uma alternativa ao emprego e queremos torná-la ainda mais profissional. Na ANJE fazemos dois tipos de empreendedorismo: o empreendedorismo de banda larga – ou seja, aquele onde apoiamos todos aqueles que nos contactam com ideias de negócio e querem criar empresas – e o empreendedorismo mais qualificado, mais tecnológico.

Em relação ao empreendedorismo de banda larga, queremos que essa área seja bem dimensionada e queremos aumentar a capacidade de resposta, porque neste momento temos muita gente que nos contacta e temos um prazo de espera com o qual não estamos confortáveis. Lembro-lhe que todos os anos somos abordados por cerca de 1500 jovens que falam com a ANJE, com a nossa Loja do Empreendedor, porque têm uma ideia de negócio, querem abrir uma empresa, estão à procura de microcrédito e querem saber como podem conseguir o primeiro apoio para constituir a empresa.

A nossa segunda prioridade é a área de internacionalização. A ANJE sempre teve uma vertente de internacionalização, com missões empresariais ao estrangeiro, levando empresários a outros países, à procura de novos negócios. Temos uma grande aposta na mobilização das empresas e da sociedade civil portuguesa para a necessidade de sermos mais globais, de vendermos no estrangeiro, não só produtos mas também serviços. Portugal tem esta geografia singular: está entre a Europa e a América e podemos aproveitar isso para funcionarmos como uma ‘trading’ no mundo.

Para conhecer a oferta formativa da ANJE, leia o artigo Quer aprender a ser líder? Conheça seis cursos de liderança

 

Como pretendem dinamizar esta área de internacionalização?

Queremos fazer menos missões empresariais mas mais direcionadas. Ou seja: queremos ter uma grande missão na área tecnológica a Silicon Valley, para o empreendedorismo tecnológico e depois desejamos apostar em alguns mercados que não são tão típicos. Estamos a pensar, por exemplo, na Indonésia e em Cuba. A Indonésia é um país muito grande, que está a registar um desenvolvimento interessante e não é um país visado pelas missões internacionais que estão neste momento ao dispor do mercado. Basicamente há muitas entidades a fazerem missões: o AICEP faz missões, a AEP faz missões… Nós também queremos fazer as nossas missões, mas queremos fazer missões que façam sentido. Ou seja, que não estejam a esbarrar naquilo que já existe.

 

Além da democratização do empreendedorismo e da dinamização da internacionalização das empresas, a ANJE tem mais alguma prioridade para os próximos tempos?

Queremos também participar na gestão de capital de risco, gerir um fundo de investimento que seja direcionado não só aos jovens que estão a começar as suas próprias empresas, mas também a outras empresas que estejam na fileira exportadora.

 

Quando prevê o lançamento deste fundo de capital de risco?

Não temos um horizonte temporal bem definido. Preferimos fazer as coisas bem feitas e para isso precisamos de tempo. Mas estamos a apostar no médio prazo: Esperamos que no ano de 2015 tenhamos tudo operacionalizado.

Conheça a opinião do presidente da ANJE no artigo O esforço que ainda falta fazer no pós-troika 

 

O projeto da ANJE de criar o fundo de capital de risco será também uma forma para ajudar a reduzir a dependência que as empresas portuguesas ainda têm em relação crédito bancário?

Também. Achamos que é saudável e desejável que haja alternativas ao financiamento bancário. Porque achamos que os [fundos de] Capital de Risco, os Private Equity e os Business Angels devem ser mais introduzidos na economia portuguesa, já que trazem um racional na gestão dos negócios, na dispersão do risco e na sucessão familiar, que neste momento existe de uma forma incipiente, dado que existem muito poucos fundos de investimento a atuar em Portugal.

 

Anje3Numa entrevista anterior referiu que gostaria que a ANJE ganhasse uma de dimensão e projeção maiores, que a associação tivesse um maior peso político. Como é que isso pode ser feito?

Essa é uma das nossas grandes tarefas. Apesar de todas as atividades que a ANJE tem – e que não se esgotam apenas na área do empreendedorismo, mas que passam também pela área da formação, pela internacionalização, pela promoção da moda através do Portugal Fashion – há muita gente, inclusivamente muitos políticos, que não sabem que temos uma atividade tão vasta e uma dimensão social também muito importante. Posso-lhe dizer que eu próprio quando aceitei fazer parte da direção da ANJE não sabia que a atividade da ANJE era tão importante e que é uma associação com um cunho territorial tão alargado: Existe no Porto, em Lisboa, no Algarve, no Alentejo…

Para saber mais sobre o tema do empreendedorismo leia o artigo Manifesto Startup quer “espicaçar” o empreendedorismo na Europa 

 

Estou a lembrar-me, por exemplo, dos vários centros de incubação e dos ‘workshops’ que a associação promove …

Sim, fazemos ‘workshops’ que parecem tão simples e tão banais “Como constituir uma empresa” ou “Como fazer um currículo”, passando por outros que têm a ver com um tipo de ‘coaching’ mais avançado, como é exemplo a formação “Como internacionalizar uma empresa”. Tudo isto tem um impacto que não é visível no imediato. A ANJE faz parte do tecido social e económico do país. É um trabalho invisível, que muitas vezes não é reconhecido, mas que existe e está lá. E se nós não o fizéssemos não haveria mais ninguém que o fizesse.

Sobre a incubação temos mais de 200 empresas incubadas. Seja ela incubação física, seja ela incubação virtual. Temos vários casos de sucesso muito interessantes que passaram pela ANJE, alguns deles associados ao Prémio Jovem Empreendedor, outros de empresas que começaram a ser discutidos na ANJE. Exemplo disso mesmo é o caso Crioestaminal, que é uma empresa tão conhecida; a Biosurfit; a Critical Software; a NDrive e outras que nasceram não na ANJE mas próximas da ANJE.

 

Que lições a crise trouxe para o tecido empresarial português? Trouxe algo de positivo?

Sim, com certeza. O principal aspeto positivo foi relativamente à alavancagem das empresas e ao serviço de dívida. Havia muitas empresas e muitos negócios que viviam dos empréstimos bancários. Mas quando o mercado abranda, quando os negócios abrandam, o serviço de dívida está sempre lá. E nesse aspeto houve um ajustamento.

Para saber como fazer crescer a sua ‘startup’ leia o artigo Incubadoras empresariais: Conheça as vantagens 

 

B.I da ANJE

A Associação Nacional de Jovens Empresários foi criada em 1986. Numa altura em que o termo “empreendedorismo” era pouco conhecido e ainda não figurava entre as expressões da moda, a ANJE assumiu-se então como a entidade pioneira no apoio à formação e desenvolvimento de negócios empreendedores criados pelas mãos de jovens empresários de Norte a Sul do país. A associação conta hoje com mais de cinco mil associados.

Uma das componentes mais importantes da atividade da ANJE passa pela formação. Todos os meses a associação promove dezenas de ‘workshops’ e de cursos de formação sobre as várias componentes que determinam o dia-a-dia de uma empresa. O apoio ao empreendedorismo não se esgota, no entanto, na veia formadora. Todos os anos a ANJE lança a Feira do Empreendedor e atribui o Prémio do Jovem Empreendedor do ano. Estes são apenas alguns exemplos de iniciativas que pretendem ser estímulos à inovação e à valorização de fatores críticos para a competitividade no mundo empresarial.

Foi também pela mão da associação que foram criadas as primeiras incubadoras de empresas em Portugal: em 1994 criou o centro de incubação da Maia e atualmente esta entidade conta já com 12 estruturas de incubação espalhadas pelo país.

Em 2008, a associação criou ainda a Loja do Empreendedor que funciona como um balcão especializado no acompanhamento da criação e desenvolvimento de empresas.

 

Por: Alexandra Brito e Bárbara Silva/Saldo Positivo

Créditos das imagens:  Eduardo Ribeiro

Nota: Este artigo foi originalmente publicado no dia 30 de abril de 2014.

 

 

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