OPINIÃO

António Mendes BaptistaPresidente da Direção da Associação Nacional de Direito ao Crédito

Microcrédito e territórios marginalizados

O presidente da ANDC explica a importância do microcrédito no combate à pobreza e despovoamento nos territórios marginalizados.

Publicado em: Empresas Opinião

micro_credito1Nos tempos que vivemos multiplicam-se os fatores de exclusão. As dinâmicas da economia atiram um número cada vez maior de pessoas para as margens do mercado de trabalho, sem perspetivas de retorno, e, no mesmo processo, marginalizam vastos territórios que ficam à margem das dinâmicas de competitividade e desenvolvimento.

Não se trata apenas das periferias urbanas onde persistem e se renovam os fenómenos de guetização, mas de importantes espaços de matriz rural que se confrontam com a desertificação humana e a crescente perda de relevância económica.

Os espaços rurais de baixa densidade são, hoje, territórios que colocam importantes desafios de coesão social e que obrigam a pensar o papel que, nos mesmos, pode ter o microcrédito. Nestes territórios não há empregos a tempo completo, e a questão central passa a ser a do aproveitamento das oportunidades de pequena escala, não para ter emprego por conta de outrem, mas para ter rendimento.

Nestes territórios, o microcrédito não é apenas um instrumento de combate à pobreza e à exclusão, mas é também um instrumento de combate ao despovoamento e à desqualificação das condições de vida. A valorização das produções de pequena escala, a preservação dos serviços de proximidade, o desenvolvimento de novos serviços sociais à população podem e devem ser articuladas com o apoio ao exercício da cidadania económica por parte dos excluídos do mercado de trabalho. Como refere a ADIE (Associação para o Direito à Iniciativa Económica, principal operador de microcrédito em França) “é mais difícil atrair para uma zona rural uma empresa de 30 trabalhadores do que viabilizar a criação de 30 empregos através de trabalho independente”.

A valorização das produções de pequena escala, a preservação dos serviços de proximidade, o desenvolvimento de novos serviços sociais à população podem e devem ser articuladas com o apoio ao exercício da cidadania económica por parte dos excluídos do mercado de trabalho

Fomentar o microempreendedorismo deve ser um vector essencial de combate à exclusão económica e de promoção do desenvolvimento local. No entanto, importa perceber a necessidade de uma abordagem integrada que trabalhe todas as fases do caminho do microempresariado: a) acolher e capacitar os portadores de ideias de negócio; b)  apoiá-los na validação da ideia e na sua  transformação em projecto de micro-negócio; c) financiá-los e; d) acompanhar a concretização do projecto até à sua consolidação.

O ponto de partida tem de ser uma abordagem centrada nas pessoas e nas suas competências e uma abordagem centrada no território e nas comunidades, nas suas oportunidades e necessidades.

A ANDC leva 18 anos de experiência no desempenho desta actividade de dar crédito (acreditar) nas pessoas e de as acompanhar no seu projecto de microempresariado. A distribuição regional dos resultados alcançados permite-nos afirmar que existe nos territórios à margem dos processos de competitividade um espaço inexplorado para a acção do microcrédito, permitindo às pessoas excluídas do mercado de trabalho valorizar as suas capacidades no contributo para o desenvolvimento territorial.

Com três desafios suplementares para a acção.

1. Por um lado, a situação de isolamento e o bloqueio das perspetivas tornam muito mais difícil, às pessoas em situação de vulnerabilidade, encontrar uma ideia de negócio e assumir que vale a pena correr o risco de a tentar. Daí a necessidade de encontrar novas formas de proximidade, de atuar a nível da capacitação e, nalguns casos, de poder pensar em micro-negócios “chave na mão” seja através de mecanismos de microfranchising, seja pela retoma de negócios em risco de fecharem devido à idade avançada dos seus atuais proprietários.

2. Em segundo lugar, torna-se necessário que as entidades que intervêm no processo de microcrédito estejam preparadas para lidar com micro-negócios menos convencionais. A pluriatividade, o trabalho a tempo parcial e, mesmo, algum grau de informalidade são condições que decorrem precisamente da pequena escala e que exigem capacidades multifacetadas de quem faz o acompanhamento destes microempresários.

3. Por último, importa adaptar as condições do microcrédito à irregularidade de rendimentos de grande parte destas atividades, sujeitas quer a sazonalidade quer aos caprichos da natureza e do clima.

O rural é um novo espaço de intervenção do microcrédito. O papel potencial do microcrédito deve ser assumido pelos responsáveis pelas políticas de desenvolvimento rural e pelos actores tradicionais na sua implementação.

 

Para mais informações sobre como aceder ao microcrédito consulte o site da Associação Nacional de Direito ao Crédito

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