OPINIÃO

Luís MenesesPresidente da Associação Nacional de Direito ao Crédito (ANDC)

Opinião: O capital, Piketty e o microcrédito

Conheça a opinião do Presidente da Direção da Associação Nacional de Direito ao Crédito (ANDC) sobre a evolução do microcrédito em Portugal. ...

opinião artigoTem sido muito falado um livro recente, de Thomas Piketty, com o título “Le capital au XXIe siècle” (Éditions du Seuil, set 2013).

O que bem se compreende se tivermos em conta a questão a que pretende responder, apresentada logo no primeiro parágrafo da introdução, na página 15 do seu livro:

“A repartição da riqueza é uma das questões hoje em dia mais discutidas e mais candentes. Mas o que sabemos de facto sobre a sua evolução a longo prazo? A dinâmica da acumulação do capital privado conduz inevitavelmente a uma concentração cada vez maior da riqueza e do poder nalgumas mãos, como acreditou Marx no século XIX? Ou, em vez disso, as forças equilibradoras do crescimento, da concorrência e do progresso técnico conduzem espontaneamente a uma redução das desigualdades e a uma estabilização harmoniosa nas fases mais avançadas de desenvolvimento, como pensou Kuznets no século XX? O que se sabe realmente sobre a evolução da repartição do rendimento e do património desde o século XVIII, e que lições podemos tirar para o século XXI?”.

Não pretendendo retirar aos leitores desta coluna a oportunidade de conhecer a resposta do autor a esta questão, e a sua análise sobre como funcionam os mecanismos envolvidos, sempre posso adiantar que, de acordo com o mesmo autor, a desigualdade na repartição do património se tem agravado nas últimas décadas, sendo atualmente a percentagem do património detida pelos 10 % mais ricos em cada país, de cerca de 70% nos EUA e no Reino Unido e de cerca de 60 % na França e na Suécia. E que “seria ilusório imaginar que existem, na estrutura moderna do crescimento ou nas leis da economia de mercado, forças de convergência que levem naturalmente a uma redução das desigualdades patrimoniais ou a uma estabilização harmoniosa.” (p. 598).

Se as leis do crescimento económico atual conduzem a uma concentração crescente do capital e a uma cada vez maior desigualdade na repartição da riqueza, mesmo com impostos progressivos sobre o rendimento, como é o caso nestes países, então há cada vez mais pessoas excluídas do acesso ao crédito. E a razão de ser do microcrédito, no conceito criado por Muhammad Yunus, nos anos 70, mantém-se. O que todos os dias confirmamos, na ANDC – Associação Nacional de Direito ao Crédito, com o aumento do número de pessoas que nos procuram. Em 2014, até final de Maio, 1.006, mais 24 % do que no mesmo período de 2013.

Precisamos de dar uma oportunidade a quem, não tendo património, pretende construir o seu futuro e ter um lugar na sociedade.

 

 

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