OPINIÃO

Luis MenesesPresidente da Associação Nacional de Direito ao Crédito

O microcrédito hoje

Num país com quase um milhão de desempregados há muitas pessoas que podem lançar o seu próprio negócio com recurso ao microcrédito..

O microcrédito é hoje um dos exemplos mais bem sucedidos de inovação social.

Exemplo de inovação porque, quando Muhammad Yunus propôs ao Banco Central do Bangladesh, em 1976, a abertura de um balcão para crédito aos pobres, a ideia só podia soar a heresia. Porque, afinal, os bancos “só emprestam a quem não precisam”, isto é, a quem tem garantias ou um vínculo de trabalho que lhe permita reembolsar o empréstimo concedido. O que, definitivamente, não era o caso dos camponeses do Bangladesh, muitos deles a viverem em situação de pobreza extrema, com rendimentos inferiores a um dólar por dia. E, no entanto, esses mesmos camponeses mostraram que, com a ajuda dum pequeno empréstimo a taxas de juro razoáveis, podiam investir num pequeno negócio e gerar um rendimento suficiente para melhorarem o seu nível de vida e para reembolsarem esse empréstimo.

Claro que isto não foi tão fácil como pode parecer. Exigiu muita sabedoria na forma como a ideia foi implementada, incluindo a criação de redes de interajuda entre os microempresários, ou melhor, as microempresárias, já que a maior parte eram mulheres, apoiadas.

Quase 40 anos depois, o microcrédito é um instrumento conhecido em todo o mundo, para o que muito contribuiu a ONU ter declarado 2005 como ano internacional do microcrédito e Mohammad Yunus ter recebido o Prémio Nobel da Paz em 2006. Um instrumento que já ajudou muitos milhões de pessoas a saírem duma situação de pobreza ou de desemprego e a terem uma vida digna.

Em Portugal, o microcrédito existe desde 1998, por iniciativa da ANDC, uma associação privada sem fins lucrativos, que desenvolve a sua atividade em parceria com diversos bancos, entre os quais assume especial relevância a Caixa Geral de Depósitos.

Dos 19 microcréditos concedidos em 1999 até aos mais de 600 que terão sido concedidos em 2012 pelas diversas entidades que atuam no setor em Portugal, há um longo caminho percorrido.

Esse progresso merece ser reconhecido e os 1700 microempresários apoiados até hoje pela ANDC são a nossa única razão de existir e são motivo de orgulho para a nossa equipa.

Mas não deve fazer-nos esquecer, a todas as entidades que colaboram nesta missão, que estamos ainda muito longe do papel que o microcrédito pode desempenhar no combate aos maiores problemas do nosso país, o desemprego e a pobreza.

O microcrédito não é para todos e não é a solução para todos os nossos males. Mas, num país com quase um milhão de desempregados e cerca de dois milhões em risco de pobreza, há certamente muitas mais pessoas que não têm acesso ao crédito e que, com um pequeno empréstimo a juros razoáveis, poderiam lançar o seu próprio negócio, proporcionando uma vida digna a si e à sua família e contribuindo para a criação de riqueza no nosso país.

 

Nota: Na parceria com a ANDC a CGD concede empréstimos para microcrédito até ao montante máximo de 15.000€ com uma taxa de juro equivalente à Euribor a 3 meses + spread de 3%, reembolsáveis até 60 meses.

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