OPINIÃO

Manuel TângerCo-founder, Head of Innovation da Beta-i

LEAN Innovation: Aprenda rápido e minimize o risco

Para Manuel Tânger todas as novas empresas nascem sob o espectro do insucesso e precisam de provar que conseguem competir no mercado.

ArtigoOs modelos tradicionais do processo de inovação baseiam-se principalmente na metodologia linear de planeamento intensivo e na busca da perfeição, para posterior lançamento no mercado. O modelo de LEAN innovation parte de um conceito diferente, o MVP, ou Produto Viável Mínimo, sujeito a uma rápida fase de teste, idealmente em condições reais de mercado. A ideia é ir refinando o conceito inicial de forma rápida e de custo controlado, ao mesmo tempo que se incorporam ‘learnings’ reais de mercado.

De forma simplificada, o que diferencia uma ‘startup’ de uma PME é o facto da ‘startup’ ainda estar à procura do seu modelo de negócio e de ter um nível de incerteza muito mais alto. Leia-se PME como sendo uma nova sapataria, cafetaria, food-truck, etc. Este tipo de negócios apresentam, é certo, a incerteza de implementar um negocio já conhecido noutro sítio. Mas uma ‘startup’ numa fase inicial nem sabe que forma terá o seu produto final.

Tipicamente, na génese de uma ‘startup’ está um problema no mercado que os seus fundadores consideram como estando mal resolvido. A equipa tenta resolver de forma criativa este problema, desenvolvendo uma solução que seja viável, sustentável e desejável.

No processo, a ‘startup’ vai afinando a sua proposta de valor, a comunicação com os seus clientes, o seu modelo de receitas, a sua principal base de custos, os recursos e parcerias chave que tem que garantir para pôr tudo em andamento.

O maior desafio de 99% das ‘startups’ é conseguir fazer isto antes de esgotar os seus (parcos) recursos. É assim uma corrida contra o tempo, até à sustentabilidade ou eventual investimento. Na Beta-i desenvolvemos, no processo de apoiar centenas de ‘startups’, uma metodologia que reduz o risco da ‘startup’ não chegar ao seu produto, acelerando a aprendizagem da organização, tão importante para criar uma solução que tenha ressonância no mercado. Chamamos a esta metodologia LEAN innovation.

Constatámos que todas as áreas que tocam no empreendedorismo desenvolveram as suas próprias abordagens para acelerar e melhorar o processo de inovação.

“No processo, a ‘startup’ vai afinando a sua proposta de valor, a comunicação com os seus clientes, o seu modelo de receitas, a sua principal base de custos, os recursos e parcerias chave que tem que garantir para pôr tudo em andamento.O maior desafio de 99% das ‘startups’ é conseguir fazer isto antes de esgotar os seus (parcos) recursos”

Da engenharia vem a LEAN startup (nome a que a LEAN innovation vai buscar inspiração), processo popularizado por Eric Ries num livro com o mesmo nome. Do design temos o Design Thinking, que formaliza o método usado pelos designers para chegarem às suas criações mais interessantes. Por fim, da gestão vem o Business Model Innovation, autoria de Alex Osterwalder e Yves Pigneur.

Todas estas abordagens incluem elementos e perspetivas únicas, mas que em parte se sobrepõem. Na verdade, como originam de áreas diferentes, usam termos diferentes para conceitos semelhantes. O que traz de novo o LEAN innovation é precisamente a uniformização dos termos e a convergência conceptual entre estas três abordagens.

 

Pilares Conceptuais

Quando se fala de um método, importa estabelecer as suas bases e metodologias. Neste caso, os pilares conceptuais da LEAN Innovation são:

 

1. Foco no cliente:

É imperativo ter bem claro para quem se está a desenvolver uma solução ou produto. Apesar de parecer óbvio, a maioria das startups recém nascidas tem pouco claros tanto a definição do problema que pretende resolver como os clientes que irão comprar essa mesma solução. Interessa aqui caracterizar os segmentos, através das suas dores, sonhos e comportamentos, mais do que idade, género ou localização.

 

2. Validação contínua:

A humildade em relação ao conhecimento do cliente ou do mercado são características importantes para um empreendedor. Julgar-se dono da verdade e não validar, com um zelo quase científico, dá rapidamente aso à construção de um produto que interessa a pouca gente e acrescenta pouco valor. Uma das tarefas que mais reduzem o risco da startup é o acumular e estruturar conhecimento sobre o seu produto, vendas, canais de distribuição, produção etc., de forma contínua.

 

3. Iterar até ao sucesso:

É preciso ter claro que não se acerta à primeira, e que o produto se vai afinando e ajustando às condições de mercado. As vontades, modas e necessidades vão evoluindo, e o empreendedor deve acompanhar de perto esta evolução testando incrementalmente melhorias e pressupostos (ideias de melhorias que podem ser testadas) de forma contínua. O empreendedor tem de se capacitar de que não existe um produto acabado, mas, no máximo, um produto atualmente bem adaptado aos clientes e mercado.

4. Competir com o modelo de negócio:

O produto é apenas o ponto de partida na relação com o cliente. Mais interessante (e protegido) do que isso é conseguir apresentar uma solução que transcenda o produto, e seja um sistema (por exemplo, que ligue vários produtos num, dando assim origem a uma solução mais completa). Pense-se na Hilti que em vez de vender ferramentas, oferece a empreitadas o serviço de disponibilizar, distribuir e manter ferramentas.

 

Pensar a inovação desta forma implica mudar a forma como as pessoas desenvolvem as suas iniciativas ligadas à inovação, criando um processo rápido de teste e aprendizagem.

Para uma ‘startup’, quando uma marca ainda não é um património, e os produtos e processos não estão ainda estabelecidos, o erro é uma condição natural para empreender. Todas as novas empresas nascem sob o espectro do insucesso, e precisam de provar que estão munidas das ferramentas para competir no mercado. Desse ponto de vista, lançar um produto para validação (MVP) coloca pouca coisa em causa, já que não existem activos como marca, gama de produtos ou ‘goodwill’ em risco de serem comprometidos por um eventual fracasso.

De facto, a ideia de desenvolver de forma rápida um protótipo para colocar no mercado não tem como objetivo avaliar o seu sucesso ou fracasso, mas antes aprender o mais rápido possível, de forma a ajustar a versão final.

O caminho para a inovação é conhecido, mas é preciso um certo grau de coragem,  persistência e paciência, que o torna tão difícil. Viver com o incerto vai muitas vezes contra a nossa natureza, mas pode trazer frutos e recompensas bem mais interessantes.

 

Para mais informações sobre este tema consulte o site da Beta-i

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