OPINIÃO

António Mendes BaptistaPresidente da Associação Nacional de Direito ao Crédito (ANDC)

Opinião: Microcrédito, um desafio para o trabalho em parceria

O presidente da ANDC explica, num artigo de opinião, quais são os principais desafios para a expansão do microcrédito em Portugal.

A Associação Nacional de Direito ao Crédito foi pioneira na introdução do microcrédito em Portugal e desde 1998 vem desenvolvendo um modelo específico de intervenção baseado numa parceria tripartida entre o sector público (IEFP), a ANDC e entidades bancárias, intervenção que já fez a diferença na vida de mais de dois milhares de pessoas.

Enquanto pioneira na afirmação da valia do microcrédito, a ANDC congratula-se com a multiplicação de iniciativas neste domínio que nos coloca na situação nova de podermos dizer que hoje não escasseiam em Portugal recursos financeiros para o apoio às iniciativas das pessoas que, apesar de enfrentarem situações de grande vulnerabilidade, consigam construir uma solução viável de vida autónoma.

É esta situação nova que nos confronta com a dimensão modesta que, apesar da multiplicação de entidades actuando nesta área, o microcrédito tem no âmbito dos problemas sobre que pretende actuar. E esta constatação é tanto mais desafiante quanto o microcrédito já demonstrou, e os estudos de avaliação promovidos pela ANDC comprovam-no, ser um instrumento eficaz de inclusão social e altamente eficiente, numa perspectiva social e de política pública, no apoio ao empreendedorismo.

Perante instrumentos eficazes, o que temos de fazer não é lamentar a sua reduzida taxa de utilização, mas vermos o que pode ser feito para os tornar mais utilizados. A este propósito, da experiência da ANDC importa sublinhar duas conclusões relevantes.

Primeira, o financiamento é condição necessária para o projecto, mas o importante está a montante, isto é na capacidade de pessoas em situação de vulnerabilidade construírem uma ideia de negócio e transformarem-na num projecto viável. Aqui, a ANDC procura fazer a diferença acolhendo os portadores das ideias e trabalhando com eles, através dos seus técnicos de microcrédito, as condições da sua viabilização. Mas é aqui, também, que reside uma das dimensões do desafio: como se pode fazer que pessoas em situação de necessidade e muitas vezes desiludidas e “perdidas” voltem a acreditar nas suas capacidades e arrisquem na criação de um micro-negócio ou no seu autoemprego?

Segunda, são enormes as dificuldades que os apoios destinados aos mais desfavorecidos têm em chegar ao conhecimento dos seus destinatários. As soluções tradicionais de divulgação não funcionam exactamente pelas dificuldades da população-alvo e existe um grande desconhecimento das soluções de microcrédito por parte dos actores locais que poderiam ser veículo dessa divulgação.

Os estudos de avaliação promovidos pela ANDC comprovam que o microcrédito é um instrumento eficaz de inclusão social e altamente eficiente, numa perspectiva social e de política pública, no apoio ao empreendedorismo.

O que a experiência da ANDC revela é que a melhor forma de enfrentar estes desafios é o trabalho em parceria. Não apenas entre os actores de dimensão nacional que, sem perda de identidade, deveriam congregar experiência e conhecimentos e promover a congregação de esforços, mas sobretudo através de parcerias territoriais efectivas. Nada parece suprir a necessidade de um trabalho de proximidade, com uma rede densa de parceiros locais, para que as necessidades das pessoas se transformem em microiniciativas e estas tenham conhecimento das soluções de apoio e financiamento disponibilizadas.  A ANDC está envolvida nalgumas experiências de parceria territorial – congregando municípios, associações, instituições financeiras – que têm demonstrado uma grande capacidade de actuar a montante e a jusante do microcrédito e de potenciar o seu papel na viabilização do direito de todos, em particular dos mais vulneráveis, à iniciativa económica.

Proximamente, vão ter lugar duas celebrações. No dia 20 de Outubro vai celebrar-se, pela primeira vez, o “Dia Europeu da Microfinança” e a 7 de Novembro a ANDC voltará a celebrar o “Dia do Microempresário”. Seria bom se estas datas fossem aproveitadas para dar relevo a este desafio do trabalho em parceria entre os que, por um ou outro modo, se propõem actuar para que todos tenham condições de concretizarem o seu direito à iniciativa e à construção de um projecto de vida autónomo.

 

Para mais informações consulte o site da Associação Nacional de Direito ao Crédito (ANDC) aqui.

 

Deixe um comentário

A Caixa de Comentários é moderada. O Saldo Positivo reserva-se o direito de não publicar os comentários que possam ser considerados ofensivos.

PUB
PUB
PUB