OPINIÃO

José Centeio Secretário-Geral da ANDC

Opinião: Será o Microcrédito ainda pertinente?

O secretário-geral da ANDC explica as razões pelas quais o microcrédito continua a ser uma solução financeira importante para muitas pessoas.

microcréditoA Europa, e Portugal de modo particular, confronta-se hoje com uma situação que, a prazo, pode ser insustentável e ter consequências bastante gravosas para as sociedades. Trata-se da elevada taxa de desemprego dito estrutural, ou seja, que dificilmente será absorvido pelo mercado de trabalho. Face a esta realidade, o microcrédito pode desempenhar um papel de verdadeira inclusão disponibilizando a esses desempregados sem horizonte de esperança uma oportunidade de refazerem a sua vida.

Não será a solução ideal, dirão alguns; é induzir em erro as pessoas oferecendo-lhes uma solução que contém demasiados riscos, dirão outros; o problema do desemprego não se resolve pelo empreendedorismo, dirão ainda os mais céticos.

Tudo isso pode ser em parte verdade, mas o trabalho desenvolvido pela ANDC ao longo de quase 18 anos prova, mesmo existindo casos de insucesso, que o balanço é assaz positivo e que foram muitos os que conseguiram dar novo rumo à sua vida. E a melhor resposta às muitas dúvidas, legítimas, que se levantam, é percebermos que sem o microcrédito muitas dessas pessoas dificilmente encontrariam alternativa. Mas o microcrédito é bem mais do que desafiar as pessoas a criarem o seu próprio emprego, trata-se sobretudo de uma pedagogia que estimula as pessoas a serem proactivas e a ganharem consciência das suas competências, dos seus saberes e a potenciarem a sua experiência, ou seja, a reganharem a sua autoestima. E isso, desculpem-me o atrevimento, vale mais do que muitas terapias.

Sendo verdade que, após algumas convulsões, se assiste a um revigorar do microcrédito em regiões do globo como a Ásia, a América Latina e mesmo o continente Africano, na Europa ocidental, apesar dos progressos, o caminho é um pouco mais titubeante e não sem algumas contradições.

 

“O microcrédito é bem mais do que desafiar as pessoas a criarem o seu próprio emprego, trata-se sobretudo de uma pedagogia que estimula as pessoas a serem proactivas e a ganharem consciência das suas competências, dos seus saberes e a potenciarem a sua experiência, ou seja, a reganharem a sua autoestima. E isso, desculpem-me o atrevimento, vale mais do que muitas terapias”

Sendo certo que ao nível da União Europeia tem existido alguma dificuldade em perceber a realidade deste movimento, nomeadamente, as pequenas organizações que embora não emprestando – sem acesso a fundos – desempenham um papel fundamental na implementação do microcrédito. Ou seja, é patente a dificuldade em adaptarem os instrumentos disponíveis, nomeadamente financeiros, a essa realidade.

Mas também alguns governos nacionais não têm primado pela preocupação e esforço em colocar em prática políticas e instrumentos que possam dar resposta a todos àqueles e àquelas que não encontram espaço no mercado de trabalho, apesar de em idade ativa. E, mesmo quando parece haver essa preocupação, muitas vezes fazem-no de forma «desajeitada», incoerente, centralizada e sem qualquer estratégia de futuro. O que muitas vezes transparece é que no que toca ao microcrédito a coisa não tem sido levada, infelizmente, muito a sério.

Sabe-se que ao nível da União Europeia existe um caminho que está a ser trilhado, embora seja longo e difícil, no sentido de ir ao encontro de uma realidade que não é sobretudo constituída por grandes organizações, nem por bancos, mas de muitas pequenas entidades que no terreno fazem um trabalho de proximidade no sentido de encontrarem respostas para as pessoas mais vulneráveis.

Pelo que atrás foi dito percebe-se que a pertinência do microcrédito, perante a impotência dos estados e da própria economia, ganha hoje uma nova dimensão. Se isso é muito claro para quem está no meio e reflete sobre estas questões, espera-se que também o seja para os decisores, não em nome de uma qualquer referência, ideológica ou outra, mas por respeito aos muitos e muitas a quem negaram a esperança.

 

Para mais informações sobre como aceder ao microcrédito consulte o site da Associação Nacional de Direito ao Crédito

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