Qual o impacto do Brexit para as empresas lusas?

Pedro A. Vieira, co-fundador de uma consultora em negócios internacionais, explica qual é o impacto do Brexit nas empresas portuguesas.

BrexitDepois dos resultados do referendo britânico de 23 de junho de 2016, o processo de saída do Reino Unido da União Europeia avança. As indecisões ligadas ao Brexit têm causado grandes preocupações não só junto dos governantes da União Europeia, mas também dos economistas, emigrantes residentes no Reino Unido, investidores e outros agentes do mercado.

Apesar dos dois anos que o processo de saída pode levar até estar concluído, as inquietações chegam também ao mundo empresarial. Os números da AICEP Portugal revelam que em 2015 mais de 3.700 empresas exportaram para esta região, sendo que o Reino Unido é o quarto mercado mais importante para Portugal.

Por isso mesmo, não é de estranhar que também os empresários portugueses estejam preocupados com as consequências que o Brexit terá nos seus negócios. Apesar da grande incerteza que existe sobre o seu impacto nas empresas lusas, o co-fundador da consultora em negócios internacionais Market Access e professor universitário na Universidade do Minho e da Porto Business School, Pedro A. Vieira, explica em entrevista ao Saldo Positivo quais as empresas mais suscetíveis de sentir efeitos negativos.   

                                                                                                                                                                          

Quais as principais consequências do Brexit na atividade das empresas portuguesas que exportam para o Reino Unido?

Haverá primeiro que perceber como a saída se irá concretizar e, depois, como as relações futuras entre o Reino Unido e a União Europeia se irão desenvolver. Além disso, não sabemos, entre muitos outros fatores, o que o Banco de Inglaterra irá fazer para minimizar o impacto do Brexit e o que se passará a nível político noutros estados-membros.

Dito isto, parece-me óbvio que haverá algum arrefecimento nos negócios em curso, algo que, aliás, já estava a acontecer nas semanas mais próximas do referendo. Várias empresas que acompanhámos e que estão à procura de exportar ou reforçar as exportações para o Reino Unido sentiram um adiamento das decisões pela incerteza. Esse período de incerteza não só não terminou, como foi agravado. Alguns negócios que estavam próximos de se concretizar poderão ser adiados por mais algum tempo.

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O professor universitário Pedro A. Vieira explica que os efeitos do Brexit não vão ser sentidos de igual forma por todas as empresas com ligações ao Reino Unido.

A situação mais delicada irá prender-se a negócios muito dependentes do custo dos produtos ou serviços. Empresas, onde o preço é um argumento forte no processo de venda, vão claramente sofrer com a desvalorização da libra. Felizmente, sabemos que há várias empresas com argumentos de diferenciação face à concorrência baseados noutros aspetos, como a qualidade, a tecnologia ou os serviços associados.

É também verdade que não serão apenas as empresas portuguesas a sentir o impacto da desvalorização da libra, mas o poder de compra dos britânicos vai ser, por esta via, inevitavelmente menor. O Brexit afetará o poder de compra bem como a confiança dos consumidores e das empresas, pelo que é muito provável que os importadores e distribuidores se contenham nas compras e nas importações, pelo menos no curto prazo.

Há por fim, uma consequência que ainda se desconhece que tem a ver com as taxas alfandegárias. Se elas voltarem – e vamos torcer para que não voltem – causarão também impacto negativo nas vendas para o mercado.

 

E para as empresas portuguesas com presença efetiva naquela região?

Para as empresas portuguesas com presença efetiva na região, as consequências podem ser analisadas de dois prismas. O negativo é que muitas delas já acumularam perdas significativas nestes últimos dias, porque as libras que detinham, nas suas contas bancárias no Reino Unido, já representam muito menos euros. Ou seja, já perderam valor. A outra, mais positiva, é que precisam de menos euros para pagar os mesmos salários e poderão até tomar decisões de investimento suportadas numa libra mais baixa. Se estiverem a produzir no Reino Unido para exportar para outros mercados, poderão até sair beneficiadas com este processo. Mas as consequências terão que ser analisadas a nível individual e dependem da dimensão, estrutura e do modelo de negócio que cada uma das empresas tem neste momento no mercado.

 

Principais riscos do Brexit para as empresas portuguesas

– Desvalorização da libra;

– Quebra do poder de compra dos consumidores e das empresas do Reino Unido;

– Maior controlo alfandegário. A saída da UE implicará o regresso dos controlos alfandegários nas trocas de bens, o que poderá contribuir para uma maior burocracia nas trocas comerciais;

– Incógnita sobre a possibilidade de reintrodução das taxas aduaneiras.

 

Há empresas que, pela natureza da sua atividade, poderão sentir mais as consequências desta decisão do que outras?

Claro que sim, mas as consequências terão que ser analisadas de forma individual. Para dar exemplos simples, mas reais: os efeitos numa empresa tecnológica, a implementar sistemas de informação em clientes do Reino Unido, serão diferentes dos efeitos numa empresa que exporte têxteis-lar e serão também diferentes dos efeitos num operador turístico.

Poderíamos generalizar e dizer que as empresas e os sectores mais alavancados à economia do Reino Unido poderiam sofrer mais os efeitos do referendo, mas as consequências não serão diferentes apenas de acordo com a atividade da empresa ou o setor de atuação. Dependem também do modelo de negócio e das vantagens nas quais assentam a sua competitividade no mercado, entre outros motivos.

 

Que cuidados devem ser tidos em conta pelas empresas portuguesas para se proteger de eventuais consequências negativas?

Diria que todas as empresas estão a olhar para a situação do Reino Unido de forma cautelosa e irão ponderar muito bem qualquer proposta que esteja, agora, em cima da mesa. Há muitas empresas que estão neste momento a negociar vendas para o mercado, quantidades; prazos de entrega; preços; exclusividade ou investimentos em promoção. Tudo isto será certamente reanalisado. Não acredito que algum empresário tome hoje, de forma leve, uma decisão para o Reino Unido que possa pôr em risco a atividade da sua empresa. Ainda assim, há formas de acautelar os riscos (cambiais, por exemplo), há seguros que podem ser feitos e cada empresa terá que ver com pormenor o que precisa para se proteger.

Mas diria também que as empresas portuguesas deverão, desde logo, olhar para dentro, fazer uma análise interna, para perceber quais os fatores que têm sido valorizados pelos seus clientes no mercado; de que forma são críticos, ou não, no atual contexto; quais são as ameaças específicas para o modelo de negócio; qual a capacidade para lidar com a incerteza; ou quais as oportunidades que conseguem identificar neste contexto.

 

“Todas as empresas estão a olhar para a situação do Reino Unido de forma cautelosa e irão ponderar muito bem qualquer proposta que esteja, agora, em cima da mesa. Há muitas empresas que estão neste momento a negociar vendas para o mercado, quantidades; prazos de entrega; preços; exclusividade ou investimentos em promoção. Tudo isto será, certamente, reanalisado”

As empresas portuguesas que estavam a equacionar entrar no mercado do Reino Unido, o que deverão fazer? Colocar os seus planos de internacionalização em ‘stand-by’?

Depende dos motivos que sustentam a decisão de entrada. Como já foi atrás referido, se é o preço dos produtos, provavelmente o melhor é mesmo aguardar. Mas se a empresa identificou oportunidades de negócio no Reino Unido baseando-se noutros critérios, poderá perfeitamente continuar a explorar essas oportunidades. Por exemplo, estamos a acompanhar uma empresa que tem um produto único, tecnologicamente inovador, que não é produzido no Reino Unido e que tem clientes potenciais locais muito interessados. A empresa deverá manter os contactos que tem em curso.

Mas interessa também referir que uma parte muito importante da resposta a esta pergunta está na mão dos potenciais clientes. Um outro exemplo, estamos a trabalhar com uma empresa do sector alimentar que está a fechar as negociações para uma primeira venda para o mercado. Neste caso, o que o distribuidor dirá sobre as quantidades que estavam a ser acordadas, para a primeira encomenda e para as seguintes, irá certamente ditar o plano de investimento e de marketing que a empresa estava a preparar para o mercado.

Não nos podemos esquecer que mercados como a Suíça e a Noruega não estão na União Europeia e são mercados muito importantes para várias empresas portuguesas. Além disso, apesar das muitas incertezas, poderá não haver (e esperemos que não haja) entraves à livre circulação de mercadorias, serviços, capitais e pessoas e que haja um acordo que promova o comércio entre os países da União Europeia e o Reino Unido.

 

Quatro números sobre as relações comerciais entre Portugal e o Reino Unido

3.713 empresas portuguesas exportaram no ano passado para o Reino Unido. Representa um crescimento de 42%, face ao número registado em 2014.

7 mil milhões de euros: Valor das exportações portuguesas para o Reino Unido em 2015.

3,4 mil milhões de euros: Valor das importações portuguesas do Reino Unido em 2015.

2 mil milhões de euros: Valor das receitas geradas pelos turistas do Reino Unido em Portugal, durante o ano de 2015.

Fonte: AICEP Portugal

 

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