“Não é possível o Estado continuar a tomar conta de nós”

Em entrevista, Luís Cabral, presidente da Associação Portuguesa das Famílias Numerosas (APFN), falou das dificuldades de poupança das famílias.

Luis Cabral1.“Numa família numerosa multiplicam-se as alegrias e dividem-se as tristezas”. Luís Cabral, recentemente eleito presidente da direção da Associação Portuguesa das Famílias Numerosas (APFN), está bem familiarizado sobre o que é a rotina de uma família grande, maior do que as “tradicionais”, que estão a encolher a cada dia que passa.

Tem 12 irmãos, sete filhos e 20 netos, de acordo com a biografia publicada no site da associação, e assume que é difícil poupar quando se tem uma família numerosa. Porém, o jogo de cintura que é necessário e o espírito de entreajuda que desenvolvem, são as ferramentas fundamentais para estimular as crianças no sentido de serem mais criativas e inventivas. Os frutos colhem-se mais tarde, pois têm tendência para se tornarem adultos criadores de riqueza.

Em entrevista ao Saldo Positivo, falou das dificuldades que as famílias sentem atualmente e do impacto que o “inverno demográfico” terá na sociedade, nomeadamente no que diz respeito à solidão e pobreza.

 

Qual é o perfil das famílias numerosas?

Em média, as famílias numerosas têm três e meio / quatro filhos. Não existe um perfil típico das famílias numerosas e os agregados que optam por ter mais filhos, fazem-nos pelas mais variadíssimas razões, não é por ter mais ou menos dinheiro. Em vez de optarem por ter uma família rica, optam por ter uma rica família.

 

Como se gere o orçamento de uma família numerosa nos tempos que correm?

Não é muito diferente do que acontecia antigamente. Não existem apoios especiais para as famílias maiores que ajudem a ultrapassar as questões financeiras. O apoio que existe vem de dentro dos núcleos, do espírito de entreajuda e partilha. As pessoas são obrigadas a poupar, porque isso é fundamental para a subsistência de todos, mas existe um espirito de entreajuda entre pais, irmãos, avós e primos muito importante.

 “Em Portugal temos um dos índices mais baixos da Europa, estamos com 1,18 de índice de natalidade. Efetivamente vai acabar com o Estado Social de que tanto nos orgulhamos”.

 

Antigamente as condições de vida não eram melhores, mas havia mais famílias numerosas. O que mudou desde então?

O que se passa em Portugal não é diferente do que se passa no resto do mundo ocidental. As pessoas têm bastante menos filhos, apesar de terem melhores condições materiais. Somos novos-ricos democráticos, tivemos acesso a bens a que as gerações anteriores não tiveram e isso fez com que as pessoas privilegiassem a sensação de poder ter isto ou aquilo e esquecido os valores principais, como a família e os irmãos. Hoje em dia “irmãos” é um termo que quase não se usa, quanto muito “irmão”.

 

O que é o “Inverno Demográfico”?

É o que estamos a assistir atualmente. Os índices de natalidade estão muito baixos, não dão minimamente para repor a população existente. Em Portugal temos um dos índices mais baixos da Europa, estamos com 1,18 de índice de natalidade. Efetivamente vai acabar com o Estado Social de que tanto nos orgulhamos. As pessoas podem viver mais tempo, mas as condições vão piorando porque a situação não é sustentável.

 

O que é preciso para mudar a situação: mentalidades ou circunstâncias económicas?

É uma questão de mentalidades. Não é por melhorias económicas que as pessoas vão ter mais filhos, aliás, aconteceu exatamente o inverso. Com a melhoria económica, a tendência foi para terem menos filhos. Tem de haver uma inversão dos valores. Mas apesar de tudo, existem famílias que têm bastantes filhos e são essas que nós procuramos que não sejam prejudicadas.

 

Considera que estas medidas em cima da mesa para aliviar o IRS às famílias, como a criação do coeficiente familiar ou os vales de educação, são positivas para aumentar a natalidade?

O espírito que está por trás é altamente positivo e nós temos dito e repetido isso. Estas mudanças, a acontecerem, são dignas das famílias. Mas não é suficiente. Em França, e outros países, o coeficiente familiar é mais elevado e a natalidade aumentou. Não acredito que seja pelo dinheiro que algumas famílias decidam ter filhos, mas pode acontecer que os agregados numerosos sejam menos prejudicados e incentivar algumas famílias a terem mais filhos.

 

Não será por aí que vai aumentar a natalidade…

Há determinadas medidas em cima da mesa, nomeadamente, a conciliação do trabalho com a família, que podem contribuir para que algumas pessoas mais hesitantes em ter filhos decidam dar o passo. Tem de se começar a pensar nisso, manter o Estado a funcionar. Essas medidas podem contribuir para repor a população, agora se vão contribuir para o aumento da natalidade… veremos.

 

Que outros apoios à família gostaria de ver implementados?

Por exemplo, descontos para entradas em eventos culturais. No que diz respeito aos supermercados devia haver especial atenção às famílias com mais filhos, o IMI podia ser mais baixo, porque as famílias numerosas não querem ter casas mais caras, mas são obrigadas a ter casas maiores. Também porque necessitam de um carro maior, podiam considerar uma redução no imposto automóvel e portagens. Em relação à água já conseguimos em algumas autarquias que as famílias grandes tenham um pequeno desconto.

“A dona da casa, ou o dono, ou os dois têm de ser diretores financeiros de uma empresa familiar”.

Em termos financeiros, quais as maiores dificuldades que as famílias numerosas enfrentam?

Talvez a maior seja a conciliação entre o trabalho e a família, porque hoje em dia o ordenado do marido não chega e é preciso o ordenado da mãe. Mas não só por isso, a mãe gosta de ter uma carreira e trabalhar. Mas torna-se difícil, não havendo uma consideração especial por estas mulheres que optam por ser mães.

Depois há as dificuldades do dia-a-dia, que se vão ultrapassando com poupança, jogo de cintura e uma gestão muito rigorosa do orçamento. Também com muita partilha, com a ajuda dos irmãos, com todas as coisas boas que as famílias numerosas têm. Como se diz: as alegrias multiplicam-se e as tristezas dividem-se. É isso que acontece na prática.

 

É preciso alguma ginástica financeira…

Muita. Tem de haver um orçamento rígido. A dona da casa, ou o dono, ou os dois têm de ser diretores financeiros de uma “empresa familiar”. É preciso ter muitos cuidados com as despesas, estabelecer prioridades rigorosas para que não falte o essencial. É preciso abdicar de muitas coisas, viajar menos e comer menos vezes fora.

 

Com tantas despesas, é possível haver espaço para a poupança?

Quando falo em poupança, refiro-me a guardar algum dinheiro para as despesas essenciais e não o gastar em despesas supérfluas. Agora poupar no sentido de prevenir situações de futuro, nem sempre é possível. É difícil poupar com uma família numerosa. Varia de caso para caso, de mês para mês, mas há pouco espaço para poupar, infelizmente. No entanto, é muito importante que haja espaço e algum esforço para poupar, por pouco que seja, é importante que se habituem a poupar.

Por outro lado, os filhos que sentem estas dificuldades financeiras tornam-se mais criativos e inventivos, no sentido de mais tarde conseguirem ser criadores de riqueza. Mas para que isso aconteça, e que possam ter educação financeira, tem de haver alguma poupança. Até porque pode acontecer alguma coisa “amanhã” e não houver nenhuma poupança, torna-se muito mais difícil.

“É bom que haja uma mesada, para que eles próprios possam dar valor ao dinheiro e saberem fazer a sua poupança para algum bem que queiram comprar”.

 

No que diz respeito à mesada, é possível dar algum dinheiro aos filhos? Como é que se processa isto nas famílias numerosas?

Não se dá o mesmo a cada filho, depende das idades e das necessidades. Mas é bom que haja uma mesada, para que eles próprios possam dar valor ao dinheiro e saberem fazer a sua poupança para algum bem que queiram comprar e que os pais não tenham possibilidade, porque não dá para tudo. O filho que conseguir poupar mais é o que vai conseguir ter coisas que os outros não têm.

 

Tendo uma família numerosa, quais os truques de poupança a que mais recorre?

Há muitos truques de poupança, em variadíssimos aspetos. As pessoas podem ser felizes na mesma, sem gastar muito dinheiro. Por exemplo, em relação à alimentação, é possível cozinhar com mais ou menos dinheiro e posso dizer, pela experiência que tenho, que hoje em dia as minhas comidas preferidas são aquelas menos dispendiosas, como os empadões ou os bacalhaus “disfarçados”. São tudo coisas em que se pode poupar.

Depois, em relação aos brinquedos, às roupas, podem passar de irmão para irmão e que as pessoas podem dar valor. E dão tanto mais valor, quanto maior a dificuldade em obter. Um miúdo que tem tudo, acaba por dar pouco valor a tudo o que tem.

 

Que conselho de poupança deixa aos portugueses que estão agora a constituir família?

É importante as pessoas tomarem consciência que não é possível o Estado continuar a “tomar conta” de nós, quando estivermos doentes ou na reforma. Temos de ser nós próprios a constituir as poupanças, se não quisermos ter surpresas desagradáveis. Assim, é bom que as pessoas tenham o seu orçamento familiar, que saibam respeitá-lo, que estabeleçam prioridades e possam colocar algum dinheiro de lado, que lhes possa valer em caso de dificuldade e também para a reforma. Às vezes pode ser difícil, mas é crucial que isto aconteça.

Em relação aos filhos, para além de serem uma enorme fonte de alegria, as famílias têm de pensar no futuro. Com o envelhecimento da população, os mais idosos acabam por ser demasiado dependentes do Estado e pouco da família, porque muitas vezes não a têm ou são cada vez mais reduzidas. Além do problema da solidão, há a questão da pobreza. A pobreza está muito mais associada às pessoas que vão avançando na idade e não têm ninguém que as ampare.

 

Biografia

Luís Casal Ribeiro Cabral, 68 anos, foi recentemente empossado presidente da direção da Associação Portuguesa das Famílias Numerosas (APFN), da qual foi cofundador, em 1999. Desde a criação da associação pertenceu a várias direções e era, à altura da eleição, presidente da Assembleia Geral.

Para além da APFN, é médico especialista em ginecologia e obstetrícia, e também pertence à direção da Associação Coração Amarela, de Oeiras, que se dedica a combater a solidão dos idosos, e dá formação no Centro de Orientação Familiar (Cenofa).

 

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