Maiores comparticipações nos medicamentos

O pessimismo é a nota dominante junto das várias famílias contactadas pelo Saldo Positivo. Luzia Figueiredo não é exceção. Esta auxiliar de geriatria tem 48 anos, é casada e tem dois filhos em idade escolar. “Muito sinceramente acho que não vêm aí boas notícias. Vi nos noticiários que os funcionários públicos vão levar um corte nos salários no próximo ano. Mas a verdade é que estes cortes não vão afetar apenas os funcionários públicos, já que mais cedo ou mais tarde as empresas do setor privado vão adotar a mesma política. Por isso, acredito que o próximo ano vá ser ainda mais difícil para a generalidade das famílias portuguesas”.
Questionada sobre a medida que gostaria de ver inscrita no Orçamento do Estado para 2014, Luzia Figueiredo refere que o Estado deveria comparticipar mais os medicamentos. “O meu filho mais novo tem problemas respiratórios e todos os anos tem de tomar uma vacina que custa 200 euros. Essa vacina não tem qualquer comparticipação. Da mesma forma, alguns medicamentos que ele toma eram comparticipados em quase 40% e deixaram de o ser”. Além disso, Luzia Figueiredo veria com bons olhos a descida do IVA na restauração: “O setor da restauração dá emprego a muitas pessoas. Se o IVA se mantiver aos atuais níveis tenho receio que muitos estabelecimentos possam fechar e, com isso, mais pessoas acabem no desemprego”.
Não aos cortes nas pensões
Para outra franja da população- a dos reformados- as preocupações estão direcionadas em outro sentido: na possibilidade de haver mais cortes nas pensões. “Não estou otimista. Estou deveras preocupada com o que vai ser anunciado. Porque cada vez mais noto que temos menos dinheiro para fazer face aos mesmos encargos”. Quem o diz é Ana Maria Cordeiro, antiga secretária de administração e reformada após 43 anos de descontos. “Não posso dizer que tive uma vida muito difícil, mas também não posso dizer que foi fácil. Eu e o meu marido criámos três filhos, com muitas despesas de educação, com uma casa para pagar e sustentar e, como tal, sempre tivemos uma grande preocupação com a gestão do Orçamento. Mas confesso que nunca vivi num período em que estivesse tão preocupada como agora”.
A crise e as medidas de austeridade já levaram à mudança de hábitos na casa da família Cordeiro. “Uma coisa que costumava fazer era mandar passar a roupa a ferro para fora. Agora sou eu que passo a ferro. Tentamos cortar também em alguns gastos e comemos menos vezes fora”, afirma Ana Maria. A antiga secretária de administração antevê que tenha de fazer mais ajustes nos seus consumos e na gestão do dia-a-dia caso venham a ser aprovados, no Orçamento do Estado para 2014, novos cortes nas pensões.
Perante este cenário, Ana Maria Cordeiro não hesita na resposta à pergunta sobre qual é a medida que gostaria de ver contemplada no próximo Orçamento do Estado: “Gostava que não cortassem nas pensões, principalmente nas pensões mínimas e nas pensões de sobrevivência”. E explica: “Com estes cortes é possível que muitos idosos que estejam em lares deixem de ter capacidade para pagar este encargo. E depois o que é que acontece a estas pessoas? Provavelmente vão para a casa de familiares, o que poderá ser muito complicado, porque muitas vezes as famílias não têm condições para prestarem os mesmos cuidados de saúde que são prestados num lar”.
Apesar desta expectativa pouco otimista, Ana Cordeiro remata com uma frase cheia de esperança: “Pode ser que o Orçamento do Estado não seja assim tão mau como estamos à espera”, diz com um sorriso.




















