Emprego: O que fazer quando se tem qualificações a mais

O excesso de qualificações pode ser um problema para quem procura emprego. Mas omiti-las do CV não é recomendado.

Qualificações-artigoFátima Borges, 36 anos, licenciou-se em arquitetura e trabalhou uma década na sua área, mas o declínio no setor da construção não poupou dezenas de ‘ateliers’ de arquitetura e o trabalho escasseou a ponto de o rendimento ser insuficiente para pagar as despesas da casa. Fátima teve que deitar mãos à obra e agarrar as oportunidades de trabalho que surgiram, primeiro como rececionista numa clínica de radiologia e, depois, como comercial de propaganda médica. Nesta caminhada conheceu bem o calvário de enviar dezenas de currículos, e se uns não tinham resposta, outros sinalizavam que as suas qualificações iam além do exigido pela função.

É já um dado adquirido, para quem acompanha de perto o mercado de trabalho, que a “sobre valorização ou qualificação académica, bem como uma experiência profissional construída por progressão na carreira podem, efetivamente, constituir algum tipo de barreiras, sobretudo, quando o ‘job description’ e os requisitos para a função são menos exigentes que as valências existentes”. Quem o explica ao Saldo Positivo é Paula Falé, ‘business concept manager’ da Randstad, empresa de recrutamento de recursos humanos.

Então o que deve fazer quem está em situação de desemprego, querendo acima de tudo trabalhar, mas tem no currículo (CV) graus académicos ou experiência profissional em cargos de chefia? Omiti-lo do CV?

 

Omitir, tem sido, mas não deve ser solução

Um processo de recrutamento visa o preenchimento de uma vaga existente tendo por base, por um lado o descritivo funcional e o perfil de competências e, por outro, o candidato que reúna todos os requisitos impostos conseguindo-se desta forma o ‘match’ perfeito. “O consultor responsável pelo preenchimento da vaga analisará todos os critérios com o objetivo de colocar a pessoa certa no lugar certo”, explica a especialista da Randstad.

Daqui decorre que, por vezes, a ocultação de determinadas competências e ou experiências do CV, pode acontecer para “o tornar mais atrativo e selecionável para a vaga a preencher, sobretudo da parte de quem se encontra atualmente desempregado e desesperadamente à procura de uma ocupação”.

No entanto, a especialista em recrutamento sublinha que “um CV deverá ser o que é e não aquilo que socialmente se deseja que seja, até porque a mentira conduz, genericamente, à exclusão dos candidatos.” Por isso considera que “omitir não será uma boa prática”. A boa prática é, antes, pensar bem nas ofertas a que se candidata e demonstrar aos potenciais empregadores que apesar das suas qualificações está motivado e interessado em diversificar e aprender novas competências achando-se capaz para o desempenho das funções em causa e comprometendo-se a desempenhá-las com profissionalismo e dedicação. “Não nos podemos esquecer que um trabalhador motivado, mesmo que para o desempenho de funções menos qualificadas, fará seguramente toda a diferença”, sublinha Paula Falé, da Randstad, rematando que “a sugestão que frequentemente damos aos candidatos nesta situação é o reajustamento das experiências do CV dando mais destaque àquela que melhor se enquadra na oferta à qual estão a concorrer. Desta forma, aumentam a probabilidade de, numa primeira triagem, o recrutador vir a considerar a candidatura para o seu processo.

 

Áreas com candidatos ‘overeducated’

A razão para o receio do potencial empregador, face ao excesso de qualificações do candidato, é explicada pela especialista da Randstad: “Do lado do recrutador candidatos com sobre qualificação para determinadas funções poderão facilmente desmotivar e procurar oportunidades de melhoria na sua área de formação deixando para trás todo um investimento de formação inicial proporcionado pelos empregadores.”

Embora esta seja uma realidade em várias áreas profissionais existem grupos de profissões em que o excesso de qualificações dos trabalhadores se coloca com maior acuidade: é o caso dos trabalhadores dos serviços pessoais, proteção e segurança e vendedores, o dos trabalhadores qualificados da indústria, da construção e artífices, às quais Paula Falé acrescenta, ainda, a grande distribuição e ‘retail’.

Quanto à idade, a sobre-educação tem vindo a notar-se de uma forma mais vincada na chamada geração ‘millennial’ – nascidos após 1982 – uma vez que terminados os percursos académicos nos seus mais variados graus o mercado de trabalho não está a conseguir absorver grande parte desses recursos, conduzindo-os à aposta na continuidade da evolução de competências. No entanto, não se verifica esta tendência apenas nas gerações mais recentes releva a especialista em mercado de trabalho, “o desenvolvimento de competências está a ser levado muito a sério pelas gerações anteriores apostando ou na conclusão do ensino superior ou no prosseguimento desse percurso através de pós graduações, ‘masters’ ou outros. O objetivo final é convergente: “Aumentar o nível de empregabilidade e a perceção da mesma, tentado com isso aportar valor quer às empresas quer ao próprio.”

 

Profissões especializadas são opção de futuro

A especialista da Randstad explica que cada vez mais, a aposta no ensino técnico-profissional é uma realidade, pois a grande maioria das profissões especializadas, ao nível da tarefa mais prática, estão hoje a ser consideradas como opção de futuro de forma a colmatar a escassez no mercado de determinadas profissões.

“Nos dias de hoje é substancialmente mais difícil encontrar costureiras, serralheiros, técnicos especializados e outros em vários setores de atividade, essencialmente pela mudança de paradigmas sociais que privilegiaram a continuidade da escolaridade mínima obrigatória através da frequência do ensino superior em detrimento da área profissionalizante”, explica a ‘business concept manager’ da Randstad, rematando que “ambas as situações são absolutamente necessárias e requeridas, evitando desta forma que se recorra a mão-de-obra especializada fora do país.”

 

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