Entrevista: “Para emigrar é preciso dinheiro”

Conheça as principais dificuldades com que os emigrantes portugueses se debatem quando decidem sair de Portugal.

emiMónica Menezes nunca emigrou, mas já teve de se despedir de várias amigas que tomaram essa decisão. Mas foi só um dia, a ver um episódio de uma telenovela em que um casal se preparava para emigrar e deixar o filho cá, que ficou motivada para escrever o ‘Guia Prático para Emigrar’ (Vogais Editora). “Era o assunto do momento. Ainda é, aliás”, disse a autora ao Saldo Positivo.

O livro reúne informação bastante útil para quem decide tentar a sua sorte fora de Portugal – Qual a documentação necessária? Quanto custa arrendar uma casa? Ou ainda, como funciona o sistema de educação no país de destino? O livro conta também com testemunhos de emigrantes portugueses que descobriu através das redes sociais e também entre os seus amigos. “Muitos partiram à procura e uma vida melhor, à procura daquilo que Portugal já não lhes dava. Mas também entrevistei quem partiu por amor ou quem partiu para ter uma nova experiência”, contou Mónica Menezes. Em entrevista ao Saldo Positivo, a autora do “Guia Prático para Emigrar” explica quais são as principais dificuldades com que os emigrantes portugueses se debatem quando decidem sair de Portugal.

Uma vez chegados ao país de destino, onde vão passar os próximos meses/anos das suas vidas, quais as principais dificuldades de adaptação com que os emigrantes se deparam?

A minha sensibilidade diz-me que é fazerem do novo país a sua casa. Quando vamos de férias não temos de nos preocupar se o talho tem os bifes que nós gostamos, se há uma mercearia perto, se a linha do metro chega à nossa casa. Mas quando vamos viver para outro país, temos de pensar nisso. Temos de pensar se conseguimos viver num país onde neva todos os dias no inverno, onde não há peixe, onde no novo trabalho não se faz pausa para almoçar… Acho que é essa a grande dificuldade. Uma coisa é uma casa, outra coisa é um lar.

De que mais sentem falta quando emigram?

Da família e amigos, sem sombra de dúvida. Saudade é mesmo uma palavra nossa. E sentem falta da comida. O bacalhau, o peixe grelhado, o cabrito assado. Português que é português adora comer!

Das pessoas com quem falou, há muitas que têm vontade de regressar ou pretendem fazer vida no país para onde emigraram?

Alguns já regressaram. Uns fizeram-no porque arranjaram trabalho cá, outros porque não aguentaram as saudades. Há outros que acredito que fiquem mais anos ou até para sempre lá fora. O que eu me apercebi é que quem emigra sujeita-se a fazer coisas que cá não fariam, como servir às mesas ou trabalhar no supermercado. Partir para conseguir uma vida melhor e regressar pior do que como se foi é impensável.

O Chile pareceu-me um país com muitas oportunidades e onde os emigrantes são bem tratados

Em que países/ cidades é mais fácil construir uma nova vida? E os mais complicados?

A Europa está a viver as mesmas dificuldades que nós em Portugal, por isso, emigrar para aqueles países para onde os portugueses sempre tiveram o hábito de ir, talvez não seja boa ideia. Mas acho que aqui a área profissional é quase mais importante do que pensar numa cidade/ país. Na Europa, como todos sabemos, os enfermeiros e os dentistas, por exemplo, são muito procurados, o que contradiz a minha primeira resposta sobre emigrar para a Europa. Depende muito da profissão que se tem. Um jornalista deve ter desemprego garantido em grande parte do mundo, um engenheiro informático deve ter trabalho da China ao Canadá.

De toda a informação que recolheu, se tivesse de aconselhar um destino para emigrar, qual seria? E porquê?

O Chile, por exemplo, pareceu-me um país com muitas oportunidades e onde os emigrantes são bem tratados. Mas mais uma vez tudo depende da área profissional. É importante quando se pensa num país não pensar logo na capital ou em outra cidade populosa. Se for para o Brasil, não deve pensar só no Rio de Janeiro ou em São Paulo. A possibilidade de arranjar trabalho numa cidade mais pequena pode ser mais fácil, com a vantagem das casas serem mais baratas, a vida em geral ser mais em conta.

Que conselhos tem para quem vai emigrar?

Estudem bem o país para onde querem ir viver. Não podem ir para o Canadá e não tolerarem dias inteiros sem sol e a nevar, não podem ir para a Escócia e não falarem nada de inglês, não podem ir para Cabo Verde e esperarem encontrar as últimas tecnologias em cada esquina. É uma mudança brutal na vida de uma pessoa, tem de se ponderar tudo muito bem. O contrato pode ser milionário, mas quanto custa a casa? O seguro de saúde? A escola dos filhos? Compensa? E há uma coisa que aprendi com o livro: é preciso dinheiro para emigrar. Quando se chega a um país, mesmo com um contrato de trabalho, não se vai receber o ordenado logo e na maioria dos países para se alugar uma casa tem de se pagar vários meses de renda de uma só vez. No Dubai, por exemplo, a renda é anual. Aquela ideia de se ir só com a mala de cartão é mesmo coisa do passado. Ah, e o currículo traduzido (tradução certificada) para a língua do país é imprescindível.

 

Biografia Mónica Menezes

Tem 37 anos e é natural de Cascais. É jornalista, licenciada em Comunicação Social pela Universidade Católica Portuguesa. Trabalhou na revista Caras e no jornal 24 horas, tendo publicado trabalhos em vários meios, como Sol, Jornal i, Notícias Magazine e Expresso.

 

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