“Portugueses continuam a assinar contratos sem os ler”

Desde 2011, o especialista em finanças pessoais já ensinou mais de três mil portugueses a gerirem melhor os seus orçamentos.

joão artigoJoão Morais Barbosa tinha uma vida confortável na banca de investimento. Foi analista de ações e ‘portfolio manager’, tendo passado por vários bancos. Em 2011, mandou tudo “às urtigas” e resolveu mudar o seu rumo profissional “apostando todas as suas fichas” num terreno pouco explorado em Portugal- o da educação financeira. A aposta revelou-se certeira: Desde 2011, João Morais Barbosa já publicou três livros sobre literacia financeira – o último dos quais, “Como acabar com as dívidas”, foi lançado no mês passado – e fundou o projeto Escola de Finanças Pessoais que permitiu-lhe dar, até agora, formação a mais de três mil pessoas.

No ano passado, o formador de finanças pessoais estabeleceu uma parceria com a Dignus Capital– empresa vocacionada para a renegociação de créditos. Desde então, o projecto Escola de Finanças Pessoais e a Dignus Capital estão a trabalhar juntos em duas vertentes: na prevenção do sobre-endividamento (através das formações) e na resolução de casos de sobre-endividamento (através da renegociação de créditos).

Em entrevista ao Saldo Positivo, João Morais Barbosa explica que há abertura das instituições financeiras para fazer a renegociação de créditos. Ao mesmo tempo, refere que os portugueses, apesar de estarem hoje mais informados, continuam a cometer erros e assinar contratos sem os ler.

 

É fácil fazer a renegociação de créditos em Portugal?

Depende dos casos. Mas em média temos conseguido uma redução das prestações em torno dos 43%. E a nossa experiência diz-nos que mais de 90% das pessoas querem cumprir com os seus compromissos. Ou seja, temos muito poucos casos de pessoas com reincidência de incumprimento. A grande maioria das pessoas quer cumprir com os contratos, são pessoas sérias que foram confrontadas com alguma situação-surpresa e viram-se a braços com menores rendimentos: Ou foram alvo de cortes de salários ou um dos membros ficou no desemprego ou houve uma situação de divórcio.

 

Como é feito esse processo de renegociação de créditos?

Ao nível da intervenção temos uma estratégia diferente da Deco. O que a Deco faz é recolher a informação e transmitir essa informação às instituições financeiras. Nós assinamos um contrato com a pessoa e negociamos através de uma procuração. Somos nós que negociamos com o cliente em nome do banco. E isto é muito importante, porque há aqui uma diferença em termos de assertividade e de taxa de sucesso do nosso negócio.

Imagine que eu tenho cinco créditos e não consigo pagá-los. Vou, por minha própria iniciativa, falar com os vários credores e tento negociar com cada um deles. É possível que eu consiga que alguns deles aceitem renegociar os créditos comigo. Mas provavelmente aquilo que eu vou fazer é utilizar esse dinheiro poupado para pagar os outros créditos. Connosco é diferente: Ao negociarmos com todos os credores, em bolo, conseguimos obter uma poupança não apenas num dos créditos mas em todos.

E os resultados têm sido óptimos, porque percebemos que os bancos querem negociar, desde que a negociação seja feita de forma profissional e credível. Tenho que fazer uma proposta credível, que tenha pés e cabeça e que mostre que a pessoa vai conseguir pagar.

 “A grande maioria das pessoas quer cumprir com os contratos, são pessoas sérias que foram confrontadas com alguma situação-surpresa e viram-se a braços com menores rendimentos: Ou foram alvo de cortes de salários ou um dos membros ficou no desemprego ou houve uma situação de divórcio”

Quais são as soluções que conseguem encontrar para este casos de intervenção e de renegociação de créditos?

Temos uma primeira reunião com a pessoa, onde fazemos um diagnóstico e levantamos toda a informação necessária e depois, dependendo do caso, vemos o que podemos fazer. Se não existirem incumprimentos, tentamos fazer uma consolidação de créditos. O problema é que muitos clientes que vêm ter connosco têm incumprimentos e, neste caso, a solução não pode passar pela consolidação de créditos. Mas podemos tentar fazer a renegociação dos créditos. E aí o que é que podemos fazer? Temos a carência de capital e podemos também colocar o valor residual para o fim do empréstimo.

Quando há dívidas do cartão de crédito também conseguimos ser muito eficazes na renegociação. Transformamos a dívida do cartão de crédito num crédito pessoal, e a taxa de juro baixa para metade. Recordo-lhe que no crédito pessoal as taxas de juro andam em torno de 12 a 15%, num cartão de crédito andam em torno dos 25%. Por outro lado, a dívida também vai reduzir. Porque se eu pagar sempre o mínimo num cartão de crédito, o que acontece? Vou pagar sempre o mínimo mas vou ficar a pagá-lo durante 50 anos.

 

Qual é a vossa taxa de sucesso?

Até ao ano passado contabilizamos cerca de mil processos de intervenção. Deste número diria que 70% têm sucesso. Os outros 30% não conseguimos resolver ou porque são casos cujo caminho passa por uma situação de insolvência ou porque a pessoa não quer. Isto porque há algumas pessoas que vêm ter connosco e nos pedem um crédito para pagar os outros créditos. E querem apenas essa solução. Há também casos de pessoas que não têm o capital necessário para fazer aqueles pagamentos de habilitadores nos cartões de crédito e aí não dá, não dá.

 

Qual é o custo do serviço?

Se a pessoa consegue obter poupança, paga. Se não tiver poupança, não paga. E por norma o custo corresponde a duas vezes àquilo que a pessoa consegue poupar todos os meses. Ou seja: Imagine que os encargos mensais passam de mil para 500. O custo é duas vezes 500 euros, ou seja, mil euros que pagará em quatro ou seis prestações.

  “As pessoas continuam a não ler os contratos, ou lêem os contratos mas não sabem o que estão a assinar”

Qual é o perfil do cliente que é alvo de renegociação?

Temos todo o tipo de pessoas. Desde pessoas com rendimentos muito baixos, passando por pessoas com rendimentos muito altos, porque o sobre-endividamento também acontece a pessoas com salários de quatro/cinco mil euros por mês. Basta que o casal não receba o prémio de desempenho anual (que tem um peso importante no orçamento) ou que um dos membros do casal tenha ficado no desemprego para terem de ajustar completamente a sua vida. E vemos também que há uma incidência muito grande em pessoas divorciadas. Porque o rendimento reduz-se para metade mas as despesas aumentam.

 

Os números de pedidos de intervenção e de renegociação estão a crescer?

Sim. E o que achamos interessante é que está a crescer o número de pessoas que procuram um crédito. Ao mesmo tempo, está a crescer a abertura dos bancos em dar crédito. Tem tudo a ver com uma questão de expectativas. Estivemos durante vários anos numa crise e ninguém queria crédito, ou quando queria era para pagar os outros créditos. Agora as pessoas estão a ficar mais optimistas – a Troika vai sair de Portugal este ano, o desemprego está a cair… – podemos dar um passo mais à frente e começam a aparecer pessoas a procurarem créditos de mais baixos montantes.

 

Há o perigo de não termos aprendido nada com as lições do passado recente?

Há uma questão que nos parece preocupante: Apesar da crise, os orçamentos ficaram melhor para quem não perdeu o emprego. Ficaram mais equilibrados, devido à baixa das taxas de juro. Eu pagava 700 euros com a prestação da casa e agora pago só 300 euros. É certo que o Estado levou-me uma parte desta poupança, por via do aumento de impostos, e que o custo de vida também subiu. Mas será que estes factores levaram tudo? Acho que não. As pessoas estão a fazer contas com o seu orçamento a este nível, mas quando a taxa de juro começar a subir, o que é que elas vão fazer? Por isso, é possível que entremos novamente numa espiral [de problemas], porque os salários não vão subir e vai haver redução das pensões.

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Uma resposta a ““Portugueses continuam a assinar contratos sem os ler””

  1. Johnc58

    Enjoyed studying this, very good stuff, regards . A man may learn wisdom even from a foe. by Aristophanes. edgdecaeckfe

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