“A poupança não deve ser uma medida de SOS”

Conheça as algumas dicas da autora do livro "ABC da Poupança", Ana R. Bravo, em entrevista ao Saldo Positivo.

poupança
Ana R. Bravo é a autora do livro “ABC da Poupança”, da editora Vogais.

Ana R. Bravo não recorda com saudade os tempos em que cedia facilmente às tentações consumistas e não tomava as melhores decisões financeiras para a sua vida. Um dia resolveu mudar de hábitos e de mentalidade e pediu ajuda para implementar um estilo de vida mais frugal. “A frugalidade é uma forma de consciência expandida de percebermos que, no fundo, o verbo ser é muito diferente do verbo ter”, escreve Ana R. Bravo no seu novo livro “ABC da Poupança”, que pretender ser, como a própria autora disse ao Saldo Positivo, uma espécie de “enciclopédia, ou Pantagruel da economia doméstica”.

Licenciada em Relações Públicas e Publicidade, formada em consultoria financeira, contabilidade e finanças, Ana R. Bravo fundou em 2007 a empresa RP Cash para prestar ‘coaching’ de finanças pessoais e ‘workshops’ de economia doméstica. Desde 2011 assina no ‘site’ Boas Notícias a rubrica “ABC da Poupança”, que agora foi transformada em livro, com “mais de 1000 dicas” para poupar em casa, nas compras, na energia, com as crianças, saúde, lazer, impostos e até no Natal.

Conheça então algumas dicas da autora, em entrevista ao Saldo Positivo, para aproveitar o mês da poupança e adotar “um estilo de vida assente na previdência, no controlo das suas despesas e no aumento da poupança, sem perder a qualidade de vida”.

 

O que é, para si, a poupança?

Para mim a poupança é sinónimo de uma vida frugal, de termos apenas o que necessitamos para viver bem. Não é um SOS, ou uma medida de contenção temporária. É ganharmos uma consciência diferente e percebermos que para viver não precisamos de uma série de coisas supérfluas. Podemos poupar de muitas formas, a poupança não tem de ser uma medida de SOS. Mas ainda hoje quando se fala de poupança é sinónimo que estamos a passar uma fase menos boa. Por causa da crise, temos de poupar. Mas deve ser uma forma de estar na vida. Ter o suficiente não é ter demais ou de menos. É sinal de que nada me falta, que tenho o necessário para viver.

 

Qual é o primeiro passo para começar a poupar?

Devemos começar pelo diagnóstico. Se queremos saber exatamente o que gastamos todos os meses, devemos fazer esta tarefa apenas uma vez na vida (só isso já é motivador): perceber tudo o que gastamos, apontando num bloquinho ou no telemóvel todas as despesas do dia, da semana, da quinzena ou do mês. Só temos de fazer isto uma vez. No final do mês dividimos estas despesas por áreas chave e somamos os valores gastos. Há áreas em que só o simples facto de apontar o que gastamos provoca imediatamente uma mudança de comportamento e uma poupança. Por exemplo, nas idas ao café ou ao restaurante. É instintivo: só pelo facto de estar a anotar, naquele mês já vai poupar. E pode ir a um valor de poupança entre 150 e 200 euros, em média, como explico no livro. É como um lembrete, de cada vez que se abre a carteira para gastar. Começa a tomar mais cuidado. Quando já temos os dados para elaborar o orçamento, é tempo de estabelecer ‘plafonds’ e tomar decisões.

 

A poupança é um hábito que “primeiro estranha-se e depois entranha-se”?

O ideal é chegarmos a um ponto em que os hábitos de poupança sejam a nossa segunda pele e não uma obrigação. Não precisamos de comer sempre fora, não precisamos de ter 10 vestidos se só precisamos de dois ou três. Mesmo sem crise, temos de questionar todas as opções de consumo. Este tipo de ponderação deve ser encarado como uma profilaxia, como uma forma de viver um bocadinho mais frugal. Imagine que este dinheiro todo que gastamos em coisas que se calhar até nem são assim tão necessárias, o colocamos de lado para um objetivo maior, como aquela viagem de sonho. A poupança não é uma forma de nos limitarmos, mas sim de ganharmos criatividade para fazermos as mesmas coisas sem a necessidade do gasto excessivo. Isso é possível.

 

Quais são as suas dicas de poupança preferidas?

As minhas dicas favoritas estão relacionadas com a alimentação vegetariana, que adotei há vários anos, projetos “faça você mesmo”, ‘bricolage’, sustentabilidade, ecologia, animais domésticos, exercício físico gratuito, remédios caseiros. São tudo práticas minhas, da minha casa e da minha família.

 

“Só o simples facto de apontar o que gastamos provoca imediatamente uma mudança de comportamento e uma poupança. Por exemplo, nas idas ao café ou ao restaurante”.

 

abc_poupanca-380x253Quais são as áreas em que as pessoas mais poupam e menos poupam?

Quando se fala em poupança, já muitas pessoas admitem poupar em algumas áreas como alimentação, energia, deslocações e compras. Não é por acaso que a crise trouxe uma queda do consumo. Estas são as dicas ‘core’, porque toda a gente de uma forma ou de outra já ouviu falar, mesmo que ainda não implemente a 100%. As dicas de poupança que ainda não são muito postas em prática são aquelas associadas à diversão e lazer. As pessoas quando pensam em poupança pensam em obrigação, contenção, e nem se lembram que podemos e devemos divertir gastando pouco ou nada, puxando pela criatividade. E sim, também se pode poupar nos encontros românticos.

 

É aqui que entra aquilo a que chama o “orçamento do prazer”?

Sim, é muito importante existir um orçamento do prazer. Nunca poderemos dissociar isso do nosso orçamento. Tem de estar lá e tem de estar orçamentado. Um espaço para a diversão e lazer, para os pequenos vícios. A vida não pode ser só pagar contas. Tem de haver o “pagar-se a si próprio”, um sentimento de recompensa pelo meu trabalho. Mas tem de estar contabilizado e ter um ‘plafond’. Se for tempo de dificuldades financeiras, a rubrica da diversão e lazer tem de ser mais curta, para privilegiar as necessidades básicas.

 

Diz que, para poupar, é urgente uma mudança do estilo de vida. Como pode ser feita essa mudança?

Nós vivemos numa sociedade consumista e os apelos ao consumo são inúmeros e são constantes. Recebemos desde mensagens subliminares a mensagens mais diretas, por isso estamos a ser bombardeados constantemente. É natural que a nossa resistência seja muito pouco musculada para fazer face a estes apelos constantes. Acabamos por nos deixar levar. Quando eu digo que é urgente mudar o estilo de vida, esta urgência tem muito a ver com uma forma diferente de encararmos estas questões do ter e de as pessoas começarem a dar mais importância ao ser. O ter vem a seguir. Quando eu estou perfeitamente satisfeita com o que sou, as minhas necessidades em termos de consumo são reduzidas imediatamente. Qualquer tipo de consumo excessivo representa sempre um desequilíbrio, que tem a ver com processos internos nossos. Se alguma coisa não está bem, vamos procurar compensações em estímulos externos. Temos de começar por mudar a mentalidade. Criarmos uma consciência diferente das nossas necessidades de consumo.

 

“O ideal é chegarmos a um ponto em que os hábitos de poupança sejam a nossa segunda pele e não uma obrigação. Não precisamos de comer sempre fora, não precisamos de ter 10 vestidos se só precisamos de dois ou três”.

 

O que vem primeiro: a mudança de hábitos ou de mentalidade?

Depende da pessoa. Há um ditado que diz: se quer ser, primeiro finja. Há pessoas para quem resulta melhor assim. Se eu quero ser poupado, então vou preocupar-me em poupar todos os dias enquanto ação, mesmo que eu ainda não esteja convencido que isto resulta mesmo. Vou criar este novo hábito e um dia o ‘mindset’ vai mudar. Há pessoas que precisar de fazer o caminho inverso: primeiro vou convencer-me que isto é melhor, mudar a mentalidade e pôr em prática o que aprendi.

 

Os portugueses ainda têm uma fraca literacia financeira?

Estamos agora a dar os primeiros passos na literacia financeira por causa da crise. Tivemos de repensar muita coisa, por uma questão de necessidade. Fomos obrigados a começar a olhar as coisas de forma diferente. Eu espero que isto se transforme num novo hábito. As economias são cíclicas e daqui a uns anos isto vai dar uma volta. Quando chegar essa altura, espero que os novos hábitos já estejam implementados. Estávamos muito habituados a viver à larga, mesmo na altura em que a abundância era muito aparente. As ofertas eram muitas e os consumidores foram inocentes e ignorantes em não pensarem na sua verdadeira situação.

 

Quando organiza um ‘workshop’ de economia doméstica, quais são as principais preocupações dos participantes?

O que as pessoas mais precisam é ter o sentido da organização e saberem por onde começar, o que invariavelmente passa sempre pelo diagnóstico daquilo que se ganha e do que se gasta. Depois devem estabelecer um orçamento. Muitas pessoas não sabem como dar estes primeiros passos, mas é normal. Eu também não soube fazê-lo até uma determinada altura da minha vida e depois procurei ajuda. Houve um tempo em que não tive as melhores decisões financeiras. Este livro é um pouco o meu percurso. O mais difícil é começar, depois é só fazer ajustes e aprender um bocadinho mais. As dicas de poupança surgem de forma intuitiva e natural, depois de dados estes primeiros passos.

 

Dicas do “ABC da Poupança”

 

• Crie um orçamento mensal em papel ou numa folha de cálculo e atualize-o periodicamente – Poupa, pelo menos, 150 a 200 euros

• Faça questões e tome decisões sobre como gasta o seu dinheiro – Poupança média imediata de 75 euros

• Beba o café em casa – Poupa entre 595 e 742 euros por ano

• Compre legumes frescos e da época – Poupança média de 50%

• Opte por medicamentos genéricos – Poupa até 95%

• Privilegie serviços na sua área de residência – Poupa em média 50 euros por mês

• Tenha ervas aromáticas plantadas em vasos, em casa – Poupa 50 euros por ano

• Faça férias fora da época alta – Poupa cerca de 60%

• Substitua fraldas descartáveis, por fraldas de pano – Poupa 700 euros ou cerca de 58%

• Adira ao ‘homebanking’ – Poupa cerca de 150 euros por ano

 

Fonte: “ABC da Poupança”, de Ana R. Bravo, editora Vogais

 

 

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