Saiba como a deflação pode afetar o seu bolso

Em Portugal a inflação já está em terreno negativo e a ameaça paira na Europa. Como é que isso pode afetar o seu bolso?

S.P.: A maior parte das pessoas acredita que uma queda dos preços poderá significar a retoma da economia. Como é que um cenário de quebra de preços pode alimentar uma recessão?

J.C.A.: Para além da questão do adiamento do consumo, que poderá levar a uma estagnação da economia, há outra consequência que é a mais complicada para nós: A penalização da dívida pública, ou seja, vamos pagar mais de juros. Na economia há as taxas reais e nominais. A taxa nominal inclui o preço do dinheiro e inflação. Isto significa que com inflação, em termos reais o juro fica mais barato, ou seja, a inflação atenua os pagamentos a efetuar no futuro. Num cenário de deflação é o contrário, vamos ter taxas de juro reais superiores do que as que teríamos.

Por exemplo: num cenário de inflação, quem tem um empréstimo com prestação fixa tem um esforço cada vez menor, porque a inflação está a ‘comer’ parte da prestação, principalmente porque o ordenado aumenta e o esforço que está a fazer em termos reais é menor. Em deflação é exatamente o contrário, em termos reais a prestação vai ficar mais cara. No momento em que a dívida pública é tão importante, torna-se mais difícil liquidar os empréstimos. Quando temos deflação, a taxa real, o que realmente pagamos, é superior e isso reflete-se nos créditos a particulares. Basicamente é por causa da fórmula de Fisher (taxa real = taxa nominal – inflação), ou seja, se a inflação for negativa, menos com menos dá mais e a taxa real é superior à nominal.

S.P.: Como pode a Europa lidar com a deflação?

J.C.A.: É complicado e isso é um problema. Enquanto se sabe muito sobre inflação, não existe ciência feita sobre como lidar com deflação. É um terreno experimental e não se percebe muito bem qual é a terapia ideal, como o caso japonês demonstra. Por exemplo, sempre que há reuniões do BCE surge o tema da deflação, mas os analistas têm posições completamente opostas, há os que dizem que é preciso mais estímulos para tentar animar a economia e contrariar a deflação, mas também há quem diga que o que deve ser feito é exatamente o oposto do que tem sido feito, ou seja, aumentar as taxas de juro para começar a trazer alguma inflação.

 

O caso japonês

Após uma luta de duas décadas contra a deflação, a economia japonesa está agora a dar os primeiros passos de recuperação. É também do país do oriente que têm vindo os principais alertas para a Europa não demorar muito a reagir à possibilidade de deflação. De acordo com um relatório apresentado ao Fundo Monetário Internacional (FMI), o vice-primeiro-ministro do Japão, Taro Aso, aconselha o Velho Continente a monitorizar muito bem o risco de deflação, pois é fácil cair num ciclo vicioso, uma vez que o adiamento do consumo pode gerar novas pressões deflacionistas.

De acordo com o governante nipónico, só nos últimos quatro trimestres é que o Japão alcançou o crescimento positivo. Atualmente, a inflação anual no Japão está nos 1,3%, mas o objetivo é alcançar os 2%.

 

 

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