Saiba como a deflação pode afetar o seu bolso

Em Portugal a inflação já está em terreno negativo e a ameaça paira na Europa. Como é que isso pode afetar o seu bolso?

armadilha1Depois da crise da dívida soberana, nos últimos meses a Europa tem sido assombrada por um novo “fantasma”: a deflação. Este fenómeno económico caracteriza-se pela descida generalizada dos preços de bens e serviços, descida essa que é persistente ao longo de um determinado período. A maior parte das pessoas pensarão que uma redução dos preços só terá implicações positivas na sua vida. No entanto, as consequências deste cenário para a economia são pouco cor-de-rosa. Isto porque a descida dos preços leva as famílias a adiarem os seus consumos e as empresas a prorrogarem as suas decisões de investimento, levando a economia a estagnar.

Os números mostram que em abril, a inflação anual no Velho Continente alcançou os 0,7%, de acordo com dados do Eurostat, uma subida face aos 0,5% registados em março. E Portugal é um dos países mais vulneráveis ao problema, tendo registado uma inflação negativa de – 0,37% em março, segundo o INE. O tema foi amplamente debatido na última reunião do conselho de governadores do Banco Central Europeu e, apesar de Mário Draghi, presidente do BCE, recusar o perigo de deflação, assume que se espera um longo período de inflação baixa. A OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico – também alertou para o baixo nível de inflação na Zona Euro, no Economic Outlook da Primavera, e pediu ao BCE para cortar as taxas de juro diretoras para 0%, que desde novembro estão nos 0,25%.

Apesar da recusa da existência de um problema de deflação, há unanimidade no pensamento de que este cenário deve ser evitado e combatido. Os analistas têm posições diferentes sobre como se deve enfrentar a questão. Porém o maior problema está relacionado com o facto de existir pouco conhecimento empírico sobre a deflação. O caso japonês – acabado de sair de uma crise deflacionária que durou duas décadas e que significou a estagnação da economia nipónica – demonstra as dificuldades que as entidades competentes enfrentam para combater este problema.

Consequências da deflação

Caso se venha a verificar o cenário de deflação em Portugal, quais poderão ser as consequências para a economia e, principalmente, para os bolsos dos portugueses? Para ajudar a esclarecer qual seria o real impacto da deflação no nosso País, o Saldo Positivo falou com o economista João Cantiga Esteves.

Saldo Positivo (S.P.) Tem-se falado muito do cenário de deflação na Europa. Podemos incorrer nesse risco?

João Cantiga Esteves (J.C.A.): A deflação é a redução generalizada dos preços. Com a deflação os preços no futuro serão mais baixos. É um cenário invulgar, principalmente porque nas últimas décadas houve um esforço muito grande para combater a inflação. Lembremos a década de 70 e 80 houve enormíssimas inflações pelo mundo inteiro. Nos últimos anos, a inflação tem estado bastante controlada – o que é positivo porque uma inflação elevada traz problemas graves.

Tem existido uma inflação baixa, mas ainda não há deflação. Neste momento, a convicção que há é que os preços estão muito baixos, na Zona Euro e em Portugal, pois estamos muito perto do zero, o que exige a nossa atenção.

S.P.: Quais as principais consequências da deflação?

J.C.A.: Se for interiorizada a existência de deflação, o comportamento racional dos agentes económicos, quer dos particulares quer das empresas, é adiar o consumo e o investimento. Ou seja, se as famílias acreditam que os preços vão baixar ainda mais, acham que vão ter mais poder de compra no futuro e que podem adiar as decisões de consumo, o que não é bom para o crescimento económico. A procura interna pode ser debilitada na expectativa de quanto mais tarde comprar mais acesso terei a bens materiais. O mesmo se passa com o investimento das empresas. Um ambiente de deflação pode adiar as decisões de investimento, com impacto na economia e no crescimento económico. Desta forma, a economia tende a estagnar, quer por via do consumo, quer por via do investimento.

S.P.: A maior parte das pessoas acredita que uma queda dos preços poderá significar a retoma da economia. Como é que um cenário de quebra de preços pode alimentar uma recessão?

J.C.A.: Para além da questão do adiamento do consumo, que poderá levar a uma estagnação da economia, há outra consequência que é a mais complicada para nós: A penalização da dívida pública, ou seja, vamos pagar mais de juros. Na economia há as taxas reais e nominais. A taxa nominal inclui o preço do dinheiro e inflação. Isto significa que com inflação, em termos reais o juro fica mais barato, ou seja, a inflação atenua os pagamentos a efetuar no futuro. Num cenário de deflação é o contrário, vamos ter taxas de juro reais superiores do que as que teríamos.

Por exemplo: num cenário de inflação, quem tem um empréstimo com prestação fixa tem um esforço cada vez menor, porque a inflação está a ‘comer’ parte da prestação, principalmente porque o ordenado aumenta e o esforço que está a fazer em termos reais é menor. Em deflação é exatamente o contrário, em termos reais a prestação vai ficar mais cara. No momento em que a dívida pública é tão importante, torna-se mais difícil liquidar os empréstimos. Quando temos deflação, a taxa real, o que realmente pagamos, é superior e isso reflete-se nos créditos a particulares. Basicamente é por causa da fórmula de Fisher (taxa real = taxa nominal – inflação), ou seja, se a inflação for negativa, menos com menos dá mais e a taxa real é superior à nominal.

S.P.: Como pode a Europa lidar com a deflação?

J.C.A.: É complicado e isso é um problema. Enquanto se sabe muito sobre inflação, não existe ciência feita sobre como lidar com deflação. É um terreno experimental e não se percebe muito bem qual é a terapia ideal, como o caso japonês demonstra. Por exemplo, sempre que há reuniões do BCE surge o tema da deflação, mas os analistas têm posições completamente opostas, há os que dizem que é preciso mais estímulos para tentar animar a economia e contrariar a deflação, mas também há quem diga que o que deve ser feito é exatamente o oposto do que tem sido feito, ou seja, aumentar as taxas de juro para começar a trazer alguma inflação.

 

O caso japonês

Após uma luta de duas décadas contra a deflação, a economia japonesa está agora a dar os primeiros passos de recuperação. É também do país do oriente que têm vindo os principais alertas para a Europa não demorar muito a reagir à possibilidade de deflação. De acordo com um relatório apresentado ao Fundo Monetário Internacional (FMI), o vice-primeiro-ministro do Japão, Taro Aso, aconselha o Velho Continente a monitorizar muito bem o risco de deflação, pois é fácil cair num ciclo vicioso, uma vez que o adiamento do consumo pode gerar novas pressões deflacionistas.

De acordo com o governante nipónico, só nos últimos quatro trimestres é que o Japão alcançou o crescimento positivo. Atualmente, a inflação anual no Japão está nos 1,3%, mas o objetivo é alcançar os 2%.

 

 

Deixe um comentário

A Caixa de Comentários é moderada. O Saldo Positivo reserva-se o direito de não publicar os comentários que possam ser considerados ofensivos.

PUB