Vejo com preocupação a queda da poupança das famílias

Faria de Oliveira, presidente da Associação Portuguesa de Bancos, falou ao Saldo Positivo sobre os temas da poupança e da literacia financeira.

Desde o eclodir da crise que os portugueses têm feito um maior esforço de poupança. No entanto, os números mais recentes do INE dão conta de uma inversão desta tendência, com as famílias a transferirem o dinheiro que antes era canalizado para a poupança, para o consumo. Como vê esta nova tendência?

Vejo com grande preocupação. Após o início da crise financeira, em 2008, a taxa de poupança dos portugueses registou uma subida considerável (de 5,3% em Junho de 2008, para 10,5% em Março de 2010). Esta evolução prendeu-se, fundamentalmente, com o adiamento das decisões de consumo e a associada preocupação das famílias em aforrar devido a um ambiente de maior incerteza, dada a maior precariedade do fator trabalho e a expectativa de reformas mais reduzidas no futuro.

Atualmente, a taxa de poupança encontra-se no nível mais reduzido desde que existe registo para a série (desde 1999), em 5%. Existe, efetivamente, uma canalização de dinheiro da poupança para consumo, sendo que o aumento do consumo se deverá não só à recuperação das rubricas de confiança, mas também ao baixo nível das taxas de juro.

A confiança dos consumidores encontra-se no nível mais elevado desde junho de 2001, fomentada pela recuperação significativa das diferentes sub-componentes, entre as quais os receios com o desemprego, assim como pelas perspetivas quanto à situação económica do país e pela situação financeira das famílias.

 

O facto de vivermos atualmente num ambiente em que as taxas de juros estão em níveis mínimos históricos pode funcionar como um desincentivo à poupança?

O nível das taxas de juro influencia as decisões de poupança, de consumo e de investimento das famílias e das empresas.

A existência de taxas de juro em níveis historicamente baixos, induzida pela ação de política monetária do BCE, pode funcionar como um desincentivo à poupança, fomentando decisões de investimento e de consumo no presente. Aliás, é precisamente esse o objetivo das autoridades de política monetária: aumentar o investimento e o consumo e, por essa via, estimular o crescimento económico.

No entanto, também a poupança é absolutamente essencial para a economia, pelo papel que assume quando alocada, nomeadamente através dos bancos, ao investimento produtivo.

 

“A poupança é absolutamente essencial para a economia, pelo papel que assume quando alocada, nomeadamente através dos bancos, ao investimento produtivo”

 

Na opinião da APB, há alguma medida que possa/deva ser tomada com o objetivo de fomentar os níveis de poupança dos portugueses? (Ex: um quadro fiscal mais favorável aos produtos financeiros de poupança)

Em termos gerais, a estabilidade do enquadramento económico, institucional e fiscal é essencial para aumentar os níveis de poupança dos portugueses. O atual enquadramento fiscal português não incentiva, por si só, a poupança. Atente-se o facto da taxa aplicável aos juros dos depósitos corresponder a 28%.

É um tema, no atual contexto, delicado e complexo, tendo em conta a necessidade de se conseguir criar incentivos à poupança, minimizando, ao mesmo tempo, os efeitos em termos de receita fiscal.

Seja como for, deixo dois exemplos de possíveis medidas: Existe uma preocupação de todos os quadrantes políticos com a sustentabilidade da segurança social. Neste domínio, poderiam ser equacionados incentivos associados à utilização de contas de poupança, de forma a aumentar (i) a sustentabilidade dos regimes de pensões, (ii) a resiliência da situação financeira dos agregados familiares e da economia como um todo; e (iii) a capacidade de mobilização de poupanças para o investimento.

Em termos gerais, considerando a racionalidade económica dos investidores, a imobilização de poupanças por períodos de tempo significativos (com taxas de rendibilidade potenciais mais atrativas) poderia ser fomentada através da taxação diferenciada das aplicações, consoante o objeto ou os prazos de imobilização do investimento.

 

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