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Vejo com preocupação a queda da poupança das famílias

Faria artigo [1]Num ambiente em que as taxas de juro estão nos níveis mais baixos de sempre, muitos consumidores fazem contas ao seu dinheiro: Com a remuneração associada aos produtos de poupança a registar valores muito baixos, os consumidores acabam por considerar que neste momento é mais vantajoso consumir do que poupar. Em entrevista (feita por mail) ao Saldo Positivo, o presidente da Associação Portuguesa de Bancos (APB) [2], Fernando Faria de Oliveira, diz ver com “ grande preocupação” esta nova tendência e sublinha que a “poupança é absolutamente essencial para a economia”.

Para estimular os níveis de poupança, sobretudo da poupança a longo prazo, o responsável pela associação que representa o setor bancário português sugere a introdução de taxas de imposto diferenciadas consoante o objeto e o horizonte temporal das aplicações financeiras.

Já no que diz respeito ao tema da educação financeira dos portugueses, o presidente da APB salienta o trabalho que tem sido desenvolvido pelo Conselho Nacional de Supervisores Financeiros e avisa que ainda há muito trabalho a fazer nesta área já que os níveis de iliteracia ainda permanecem elevados.

 

A APB é uma das entidades em Portugal que mais tem apostado na promoção da literacia financeira. Quais as razões que levam a associação a fazer um investimento nesta área?

A atuação da APB na promoção da literacia financeira corresponde, em primeiro lugar, a um dever cívico e a um desiderato da responsabilidade social do setor. Por outro lado, resulta da constatação de que quanto melhor preparados estão os clientes dos bancos para tomarem as suas decisões financeiras mais benefícios mútuos se obtêm. O fator risco (de incumprimento), por exemplo, é minimizado e o fator benefícios otimizado.

A conjugação destas duas ordens de razões faz com que a Educação Financeira seja também um importante vetor da estratégia de recuperação da reputação da banca.

Assim, a APB está empenhada em colaborar ativamente com o Conselho Nacional de Supervisores Financeiros na sua estratégia nacional de educação financeira, desenvolve as suas próprias ações e exerce também uma função de congregação de iniciativas dos bancos seus associados.

 

Uma das atividades que a APB realiza no campo da educação financeira são as ações formativas junto do público. Nestas ações de formação, quais são as principais lacunas de conhecimentos financeiros que a APB identifica nos consumidores?

A realidade que se encontra através das ações de formação desenvolvidas pela APB reflete o trabalho de análise mais aprofundado e alargado dos níveis de literacia financeira da população portuguesa que tem vindo a ser desenvolvido pelo Banco de Portugal. É a população jovem e estudante, assim como a mais idosa, quem apresenta graus menos satisfatórios de conhecimentos financeiros.

Por outro lado, fatores como a existência de um baixo grau de instrução ou de rendimentos reduzidos estão muitas vezes associados a menores níveis de literacia. Quanto há compreensão dos produtos e serviços bancários, e nomeadamente no que diz respeito a produtos tão relevantes como o crédito, há um caminho importante ainda a percorrer.

 

Conheça as ações de formação financeira da APB

A estratégia da APB para a promoção da educação financeira em Portugal assenta em vários projetos. Um deles é o site Boas Práticas, Boas Contas [3] que pretende, através de casos práticos e realistas, dar a conhecer à população informação útil e descomplicada sobre o modo de funcionamento dos serviços financeiros.

A APB desenvolve também ações de formação financeira para o público em geral. Por norma, estas ações decorrem em parceria com as autarquias e a entrada é gratuita. Além disso, e com o objetivo de preencher “as necessidades de informação dos jornalistas” e para que “estes contribuam para uma melhor compreensão e interpretação dos temas financeiros e bancários em Portugal”, a Associação Portuguesa de Bancos contempla também um conjunto de ações formativas para jornalistas.

 

Em 2010, o Banco de Portugal lançou aquele que ainda é hoje o mais completo estudo sobre a literacia financeira dos portugueses. Os resultados revelavam na altura um grande défice de conhecimentos financeiros por parte da maioria da população. Desde essa altura até agora, considera que os níveis de educação financeira melhoraram?

Os níveis de iliteracia financeira são ainda genericamente elevados. A sensibilização (e as ações) para esta matéria é ainda recente. Estamos perante um trabalho de gerações, sendo, no entanto de relevar aquele que já foi realizado sob a égide do Conselho Nacional de Supervisores Financeiros na conceção, sistematização e coordenação de ações de formação e o desenvolvido pelas instituições financeiras, quer no âmbito do grupo de trabalho da APB quer, principalmente, os da sua própria iniciativa.

“Os níveis de iliteracia financeira são ainda genericamente elevados. A sensibilização (e as ações) para esta matéria é ainda recente. Estamos perante um trabalho de gerações”

Desde o eclodir da crise que os portugueses têm feito um maior esforço de poupança. No entanto, os números mais recentes do INE dão conta de uma inversão desta tendência, com as famílias a transferirem o dinheiro que antes era canalizado para a poupança, para o consumo. Como vê esta nova tendência?

Vejo com grande preocupação. Após o início da crise financeira, em 2008, a taxa de poupança dos portugueses registou uma subida considerável (de 5,3% em Junho de 2008, para 10,5% em Março de 2010). Esta evolução prendeu-se, fundamentalmente, com o adiamento das decisões de consumo e a associada preocupação das famílias em aforrar devido a um ambiente de maior incerteza, dada a maior precariedade do fator trabalho e a expectativa de reformas mais reduzidas no futuro.

Atualmente, a taxa de poupança encontra-se no nível mais reduzido desde que existe registo para a série (desde 1999), em 5%. Existe, efetivamente, uma canalização de dinheiro da poupança para consumo, sendo que o aumento do consumo se deverá não só à recuperação das rubricas de confiança, mas também ao baixo nível das taxas de juro.

A confiança dos consumidores encontra-se no nível mais elevado desde junho de 2001, fomentada pela recuperação significativa das diferentes sub-componentes, entre as quais os receios com o desemprego, assim como pelas perspetivas quanto à situação económica do país e pela situação financeira das famílias.

 

O facto de vivermos atualmente num ambiente em que as taxas de juros estão em níveis mínimos históricos pode funcionar como um desincentivo à poupança?

O nível das taxas de juro influencia as decisões de poupança, de consumo e de investimento das famílias e das empresas.

A existência de taxas de juro em níveis historicamente baixos, induzida pela ação de política monetária do BCE, pode funcionar como um desincentivo à poupança, fomentando decisões de investimento e de consumo no presente. Aliás, é precisamente esse o objetivo das autoridades de política monetária: aumentar o investimento e o consumo e, por essa via, estimular o crescimento económico.

No entanto, também a poupança é absolutamente essencial para a economia, pelo papel que assume quando alocada, nomeadamente através dos bancos, ao investimento produtivo.

 

“A poupança é absolutamente essencial para a economia, pelo papel que assume quando alocada, nomeadamente através dos bancos, ao investimento produtivo”

 

Na opinião da APB, há alguma medida que possa/deva ser tomada com o objetivo de fomentar os níveis de poupança dos portugueses? (Ex: um quadro fiscal mais favorável aos produtos financeiros de poupança)

Em termos gerais, a estabilidade do enquadramento económico, institucional e fiscal é essencial para aumentar os níveis de poupança dos portugueses. O atual enquadramento fiscal português não incentiva, por si só, a poupança. Atente-se o facto da taxa aplicável aos juros dos depósitos corresponder a 28%.

É um tema, no atual contexto, delicado e complexo, tendo em conta a necessidade de se conseguir criar incentivos à poupança, minimizando, ao mesmo tempo, os efeitos em termos de receita fiscal.

Seja como for, deixo dois exemplos de possíveis medidas: Existe uma preocupação de todos os quadrantes políticos com a sustentabilidade da segurança social. Neste domínio, poderiam ser equacionados incentivos associados à utilização de contas de poupança, de forma a aumentar (i) a sustentabilidade dos regimes de pensões, (ii) a resiliência da situação financeira dos agregados familiares e da economia como um todo; e (iii) a capacidade de mobilização de poupanças para o investimento.

Em termos gerais, considerando a racionalidade económica dos investidores, a imobilização de poupanças por períodos de tempo significativos (com taxas de rendibilidade potenciais mais atrativas) poderia ser fomentada através da taxação diferenciada das aplicações, consoante o objeto ou os prazos de imobilização do investimento.

 

Leia também os seguintes artigos:

– APB lança site de educação financeira [4]

– Educação Financeira: O que ainda falta fazer? [5]

– 10 livros sobre literacia financeira [6]

– 10 Dicas financeiras de pais para filhos [7]